A busca pelo direito do conforto no vestuário


A pandemia do COVID-19 mudou tudo que estava sob controle globalmente no

mundo. Expectativas frustradas, planos adiados, rotinas tendo que ser reinventadas dozero. O sistema de trabalho padrão foi transformado no que dá para fazer de casa.

Tem levado o nome de home –office, mas nem sempre está bem estruturado. A

empresas se viram obrigadas a liberar funcionários, que tiveram que encontrar algum jeito de continuar trabalhando onde antes era o local de descanso.


Como sociedade, estávamos acostumados com a divisão trabalho/casa e com

as expectativas de cada uma. No trabalho, estrutura, organização, performance. Em

casa, relaxamento, menores expectativas, reposição de energia e nosso vestuário

também seguia esses limites.


O novo cenário do trabalhador desapareceu com os limites e acentuou uma

tendência que já vinha acontecendo que é uma busca por conforto no vestuário e a

normalização de códigos mais informais, esportivos.


Há décadas a sociedade vem buscando e criando novas formas de fazer com

que roupas sejam mais confortáveis. Quanto mais ativa a vida humana foi ficando,

mais as roupas tiveram que ser adaptadas para servir ao ritmo.


Podemos começar a pensar em conforto e roupa esportiva lá em 1890, quando

o ciclismo virou tendência no período Eduardiano e para que as mulheres pedalassem

com facilidade, foram criadas as bloomers, que eram peças semelhante às calças,

presas em algum ponto entre o joelho e o tornozelo. (OHARA, G. A Enciclopédia da Moda

de 1840 a 1980.)


Outro momento de “libertação feminina” foi no começo do século XX estilistas

como Paul Poiret, Madeleine Vionnet, Coco Chanel pensaram em novas silhuetas que

não apresentavam a necessidade do uso do espartilho.


Poiret porém é quem recebe o grande crédito de assegurar que “seus

desenhos recebessem atenção e reconhecimento por essa guinada” como dito em

(STEVENSON, N. J. Cronologia da moda.). O que marcou Chanel, e também a destacou pelo abandono do espartilho, era a mistura do estilo masculino e das referências esportivas em seu design. “ As roupasde Chanel eram criadas para ser usadas sem espartilhos, eram feitas com menos forro para ficarem mais leves e menos rígidas” (OHARA, G. A Enciclopédia da Moda: de 1840 a 1980). O uso do Jersey como material para a produção de suas peças era uma

inovação, já que o tecido era para roupa de baixo masculina.


“Em 1920 lançou calças largas para mulheres baseadas na boca de sino dos

marinheiros, chamadas de ‘calça de iatismo’. Dois anos depois, Chanel lançou amplos

pijamas para praia generosamente cortados”. (OHARA, G. A Enciclopédia da Moda de 1840

a 1980.)


A criação da calça de moletom como conhecemos é dada para Emile Camuset,

da marca esportiva Le Coq Sportif, também na década de 20. O estilo ficou

popularizado também ao ser usado por esportistas nas Olimpíadas e a preocupação

com o corpo e saúde foi ficando mais comum.


Por um tempo, as roupas de ginástica se assemelhavam às roupas casuais,

porém feitas de materiais mais confortáveis como malhas, algodão, etc. Ao longo de

décadas, muitas barreiras estéticas foram sendo ultrapassadas. As pessoas ficaram

mais acostumadas a ver mulheres de calça, uma casualidade começou a fazer parte

do vestuário, consequência também do movimento hippie que trouxe o jeans para a

vida diária o boom do sportswear aconteceu nos anos 80. Nesses mais ou menos 50

anos o salto em desenvolvimento têxtil, aliado ao auge da aeróbica e jogging.


A influência esportiva estava por todo lado nos anos 80 apareceu nas cores e o

elastano estava em vestidos, calças, tudo que se pudesse imaginar. Todo mundo,

praticando esporte ou não, assimilou a ideia de conforto da roupa esportiva. O estilo

esportivo se inseriu em estilo mais formais e era possível fazer o conjunto tênis

esportivo e terno feminino.


O moletom, aquele lá dos anos 20 virou uma peça básica, casual e jovem. É o

penúltimo degrau de casualidade, um conforto acima do pijama. Aceitável para tarefas

cotidianas, mas tabu para o mercado profissional.


Coincidentemente, a moda esportiva já dá sinais de que não ficará mais

inserida em uma só função. No programa, uma pesquisa realizada em 2013, pelo

Journal of Consumer Research, mostrada no programa “ Explained” da Netflix, com

vendedoras em Milão mostra que a roupa esportiva é sinônimo de dinheiro dando mais

status à usuária do que um casaco de pele.


Buscamos alternativas que proporcionem mais conforto há séculos. E foi nas

inovações nas roupas esportivas que encontramos boas soluções, como o moletom, o

elastano, a legging, entre outras.


Em 2017, o site Business Insider trouxe descrição do estilo Atlheisure, um

híbrido entre roupa esportiva e casual, durabilidade e conforto para usar o dia inteiro.

E em um mundo com tanta correria e compromissos que se misturam, a tendência foi

rapidamente assimilada pelo mercado.


O que se viu durante o período do isolamento social foram memes, piadas em

um misto de consolo para mostrar que as roupas de trabalho não sabem o que está

acontecendo com seus donos já que esses mesmos já não sabem o que fazer de sua

imagem pública.


A casa era o refúgio onde era possível tirar o sutiã, o salto e se despedir por

algumas horas das pressões estéticas. Se o trabalho é feito em casa, sem a

necessidade de aparecer em câmera, para que trocar de roupa? Para que sujar mais

coisas e ter ainda mais trabalho depois? Para que colocar uma calça social e um

sapato desconfortável se ninguém vai ver? Pantufas e chinelos são mais que

suficientes.


As partes de baixo foram as primeiras que ficaram obsoletas. Quando existe

uma reunião, uma aula online dá para correr para colocar uma blusa e colocar um

brinco e ficar “mais apresentável”.


Percebendo essa tendência e empresa japonesa Whatever Inc. chegou a criar

um modelo próprio para esse momento de fusão com uma parte de cima na metade

superior como uma camisa e a parte de baixo e calça feitas de moletom.


Com o mundo ainda parcialmente paralisado pela pandemia não sabemos ao

certo como as tendências de moda serão impactadas por esse momento de reclusão,

de falta de definições entre casa/trabalho, mas, ao que parece, a priorização do

conforto é mais que uma tendência, é uma conquista da qual humanidade que não vai

desistir.







18 visualizações