A MODA EM ESTADO DE OBSERVAÇÃO


Apesar de estarmos em 2021 ainda carregamos conosco a memória de 2020 como um grande agente transformador de nossas vidas em diversos aspectos. A pandemia impactou vidas, relacionamentos, negócios, economia, saúde e consequentemente a nossa maneira de enxergar e encarar a nossa forma de viver, agir, consumir e interagir.


A própria moda ao longo do tempo tem lutado para reformular seu status quo e se viu diante inúmeros sinais que demonstram a sua insustentabilidade seguindo métodos clichês/démodé. Ou seja, permanecer na velha forma de se fazer moda é de fato sustentável para a indústria?


Dias atrás li uma frase que traduz a ótica da moda tida como frívola e fútil. Moda não é só look do dia ou marca que veste a celebridade ou a influencer da vez. Essa expressão vi no insta da @camilafashiontips e que a meu ver resume o seguinte, a moda é e deve ser um agente de mensagens políticas e sociais de uma forma mais coerente. Nos últimos dias vimos como as cores inclusive foram palco para diversas análises na ocasião da posse do atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. O conteúdo de moda deve ir além do puro e simples LIKE.


Diante as mudanças que o mundo e a moda passaram podemos citar como lições aprendidas com a pandemia os seguintes tópicos:


  1. Máscaras e tecidos antivirais: Com o fechamento das fábricas e o afastamento das pessoas com as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) quanto ao uso de máscaras algumas fábricas com as devidas medidas protetivas passaram a produzir máscaras e EPI (equipamento de proteção individual). O mesmo ocorreu com pequenos empresários ou mesmo pessoas comuns que tinham alguma noção de costura passaram a fabricar máscaras de tecidos como forma de renda.

  2. Conscientização coletiva: Conglomerados de moda de forma a contribuir para a disseminação do consciente coletivo passaram a utilizar de sua influência para poder promover suporte e apoio para a causa da pandemia. Exemplo são os grupo LVMH, Kering e o grupo Tiffany & Co durante a produção de álcool em gel, fabricação de máscaras, arrecadação de fundos e outras ações.

  3. Mudanças dos hábitos de consumo: o mundo de forma geral passou a repensar o consumo. Guarda-roupas abarrotados de itens de vestuário passaram a ser revistos dando uma crescente à venda, doações e até mesmo compra de artigos de segunda mão optando-se por viver com menos e de forma mais consciente.

  4. Valorização de peças mais confortáveis: em home office as pessoas optaram pelo conforto de tecidos mais leves e confortáveis e adotaram na parte down do vestuário itens como moletons e outros itens mais despojados. Enquanto isso na parte up as pessoas optaram também pelo conforto, porém, com um toque de estilo e mais profissional.

  5. Aumento em produtos de beleza: com as videochamadas e teleconferências houve uma crescente no consumo de produtos de beleza de forma aos cuidados com a pele e itens de maquiagem ganharem destaque no comércio eletrônico.

  6. Maior presença digital dos negócios: costumo dizer que a pandemia provocou uma reaceleração digital dos negócios. Dessa forma para se fazer relevantes muitos negócios mesmo que não tivessem uma presença digital coerente passaram a entender que a linguagem digital era necessária para a sobrevivência.

  7. Aumento no consumo via e-commerce: dentro de nossos lares em quarentena vimos a incerteza de alguns e-consumers acabar, pois, o número de compra no comércio eletrônico atingiu índices nunca visto antes. Segundo o EBIT houve um aumento de 47% no ano de 2020 se comparado ao ano de 2019.

  8. Transição dos desfiles tradicionais para o formato digital: marcas de moda perceberam que para se manter antenadas ao momento passaram a lançar suas campanhas de forma digital em espetaculares Fashion Films ou novos formatos de desfiles e campanhas.

  9. Lives: Seja no Youtube, Instagram e até no Facebook muitas foram as visualizações de conteúdos diversos por meios digitais. Música, palestras, desfiles e outros conteúdos foram veiculados por essas mídias digitais. Teve momentos inclusive que a oferta desses conteúdos chegou a um nível de saturação. De forma a criar diálogos e entretenimentos com o público palestras com conteúdo de moda aconteceram, tutorias de como fazer máscaras e outros conteúdos alimentaram os feeds em nossas redes sociais.

  10. Live commerce: A venda dos produtos de moda e outros itens passaram a ser feitas também por meio dos canais digitais. Podemos dizer que o status da tradicional venda em infocomerciais e canais de vendas foram atualizados. No Brasil a Renner, Riachuelo e Farma podem ser alguns dos exemplos citados que optaram pelo conceito.

  11. Parcerias: Grandes marcas tidas como concorrentes uniram forças na busca de relevância e entrega aos consumidores. Camila Salek da VIMER VM em seus conteúdos mostrou muito como essa dinâmica da coopetição funcionou vide o exemplo da campanha RESERVA & SCHUTZ.

Com esse panorama é possível verificar que não só dentro no sistema da moda, mas, como em diversos setores econômicos a mudança foi necessária. Infelizmente em algumas situações ocasionando uma onda de desemprego e fechamento de portas no comércio e vidas perdidas. Acredita-se que muitas marcas e pessoas tinham certa noção de que mudanças são possíveis, porém, a pandemia acabou por tirar o véu de nossa arrogância pessoal (egoísmo) e até mesmo empresarial ao expor as fragilidades dos negócios de que tudo sei e que não preciso de ajuda colocando vidas e negócios em cheque.


Alguns negócios, infelizmente, perderam a chance de se reinventar e encerraram suas atividades. Porém, as marcas que viram na crise a chance de criarem oportunidades e assim construir um futuro melhor dentro da moda se saíram muito bem e conseguiram escapar das estatísticas.

O espírito do tempo (zeitgeist) de 2020 mostrou não só à moda, mas, para o mundo que precisamos cuidar da nossa mente, corpo e espírito e que a pandemia só se vence por meio da união, coerência de diálogos, alinhamento de propósitos e repensar o futuro e nosso propósito pessoal e empresarial.

Mais uma vez devemos nos perguntar até onde a tradicional forma de se fazer moda se sustentará? E nossos hábitos de consumo? Os negócios são imunes mesmo às mudanças dos tempos?

De 2021 em diante temos a chance de desenhar uma moda e nossas vidas de maneira mais concreta e mais humana e isso só será possível com a mudança interna do DNA das marcas e de como a sociedade enxerga a interação social e nossos hábitos de consumo de forma geral.

Como agente transformadora a moda deve ser capaz de revisitar estruturas, remodelar incoerências do passado, reformar o presente e criar um futuro novo. Vamos juntos construir uma moda diferente?



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