A problemática da objetificação das modelos no mundo da moda

(Análise)

A figura, ou pelo menos a construção da figura feminina na sociedade, nunca foi uma pauta fácil, ou muito menos, uma pauta que não desse um nó no meu estômago a cada matéria lida ou fato encontrado. Quiçá a construção social da mulher por meio da roupa, na qual apenas algumas folheadas em livros de história da indumentária já demonstram a submissão vestível da mulher ao longo dos séculos.


Afinal, se hoje podemos oscilar entre mini saias, ternos e o que mais bem entendemos quando o assunto são roupas, isso só acontece porque lá trás nossas ancestrais se submetiam a verdadeiras camisas de força vitorianas (também conhecidas por espartilhos) e camadas e mais camadas de tecidos, os quais mais do que demonstravam uma certa estratificação social (quanto mais camadas mais bofunfa) também representavam uma nítida objetificação da mulher na qual a figura feminina é claramente co-protagonista em uma sociedade burguesa, majoritariamente masculina e amplamente machista.

Mas tal objetificação (e por vezes hipersexualização) é um campo que está longe de ter ficado apenas em um passado vitoriano. É só pararmos por 5 minutos e analisarmos como por anos temos tratado as modelos no mercado de moda. Afinal de contas, parece que por tanto tempo julgamos o corpo delas como o estereótipo de toda uma sociedade que ele chegou ao ponto de ser reduzido a um objeto.

Muito correlacionada a história das revistas e ao crescimento das modelos, a fotografia de moda começa em 1880 e muito tem a ver com tal processo de estereotipação e objetificação das modelos. Os padrões de beleza sempre estiveram no centro das construções culturais, e segundo Umberto Eco são fruto do idealismo figurativo de uma sociedade. Mas com a fotografia de moda e a difusão de imagens de mulheres de corpos julgados como perfeitos, fotografados majoritariamente por homens, vemos a figura feminina ser manipulada a gostos masculinos, refletindo não apenas seus desejos como o que se pensava ser o ideal de toda uma sociedade.

É verídico e por mais absurdo que seja, é documentado: vivemos em uma sociedade misógina na qual modelos são pensadas, tratadas e objetificadas como cabides, bonecas e manequins os quais de vivos só devem ter a possibilidade de posar (seja para câmera seja nas passarelas), e que mais do que o estereótipo do corpo perfeito, correspondem a apoteose da emancipação sexual da mulher.

Afinal de contas é inegável: por muito tempo a moda não só acompanhou como traduziu as pressões culturais sobre o corpo feminino. Corpos os quais se tornaram maleáveis a um ideal social incoerente ao plural corpóreo da sociedade em que vivemos. Em outras palavras com feições dignas de passarelas e sendo julgadas muitas vezes por retratarem caprichos fugazes do vestir, nesse escopo, a moda oprime, não liberta. Coisifica, não empodera.

E se já não bastasse todos os absurdos tradados como meros coadjuvantes em um fashion film verídico por qual elas passam, modelos em inícios de carreira, conhecidas por "new faces" se submetem a tudo e mais um pouco, como se ficar horas de pé sem beber sequer um copo d'água, fosse uma "normativa" preponderante imposta em seus mercados de trabalho.

Para provar tal problemática quanto a objetifição das modelos no mercado de moda, pedi para uma amiga que é modelo me ajudar com alguns depoimentos. M. não só abriu meus olhos ainda mais para absurdos da carreira, mas sim para os absurdos de quem teoricamente está no topo da cadeia:

"Teve uma loja que ia fazer pagamento em permuta pelas fotos como se fosse um provador".

“Uma agência de publicidade entrou em contato comigo pra eu poder fazer o lookbook de uma marca fitness cujo eu já tinha trabalhado, e que eles tinham assumido o comando. Falou pra caramba tudo que queria e no final disse que o cachê maravilhoso era de 80 reais, eu gargalhei de nervoso, e disse que o meu cachê pelo trabalho era 10x o que ela estava oferecendo, ele teve a audácia de dizer que essa diária eu iria ter pelo menos 15 dias e que eu não tenho demanda pra o meu cachê, e que eu deveria aceitar, rs. Não aceitei óbvio e continuei com a demanda que ele disse que eu não tinha.”

"Em um Backstage arrumaram a minha pose de uma forma muito rude, o normal é a produção/fotografo/cliente da a orientação para a gente reproduzir, mas não foi o que aconteceu. E eu queria ter falado, mas o medo de dizer e depois ficar queimada foi maior."

Será que todos esses absurdos desumanos são respaldados pela normativa do elas não têm o “corpo real”. Isso eu não sei. Mas afinal de contas, que corpo é esse que não é real? Que não sente sede? Que não cansa. Que não precisa ser respeitado?


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