A relação entre a roupa, o corpo e a emancipação feminina.


Excludente ou classificatória, a moda nos permite explorar e compreender a

sociedade e as representações do corpo feminino. É fácil analisar na história

da indumentária as relações de binarismo, trazendo um conciso recorte

histórico, no séc. XVIII, antes da Revolução Industrial, os homens tendiam a se

vestir de forma que nos tempos atuais diríamos exagerada, com composições

cheias de babados e rufos, no início séc. XIX, os papéis se invertem, visto que

as mulheres passam a utilizar trajes mais complexos, detalhados e

glamorosos.  Entretanto, as roupas ditas como glamorosas além de representar

uma aceitação social, tinha um objetivo de agradar o sexo oposto.  


     O séc. XIX foi importante para o universo feminino no mundo da moda, no

início do séc. as roupas eram influenciadas pelo Neoclássico, que definia o seu

ideal como: beleza, moda e arte, se assemelhando ao máximo as estátuas

gregas da antiguidade clássica.  Porém, o final do século é um momento

descrito pela necessidade das mulheres de abandonar os espartilhos, saiotes e

saltos para adotar vestidos simples, foi também nesse momento histórico que

as mulheres passaram a adotar roupas ditas masculinas como as calças, uma

representação de poder unicamente masculino que chegou a ser proibida por

lei em 1800 de serem utilizadas por mulheres. No entanto, atividades físicas

passaram a ser cultuadas por aquelas que vieram antes de nós e foi através do

esporte, mais precisamente das bicicletas que a emancipação começa a

ganhar força, as ‘’magrelas’’ tiveram um grande papel na autonomia feminina,

as ditas calças utilizavam na época possuíam um volume proeminente, que

muito se assemelhava a uma saia, denominadas de calças bloomer em

homenagem a feminista Amélia Bloomer. A praticidade venceu o preconceito e

a opressão, a mudança do cenário mundial trazida pela guerra, trouxe à tona a

precisão de as mulheres assumirem os postos de trabalho deixados pelos

homens e a calça comprida foi inserida na vida das cidadãs comuns por uma

questão de necessidade.


Não foi só no momento pós-guerra que a roupa é utilizada como mecanismo

de defesa, empoderamento, garantia de poder e respeito feminino.

O power dressing surgiu com a necessidade da mulher de 80 marcar sua

emancipação sobretudo no cenário corporativo, o Power Dressing em tradução

direta significa, vestindo poder – surgiu no final dos anos 70. marcando mais

um período onde a moda foi grande aliada a emancipação feminina, fazendo

do vestir a liberdade do ser, mesmo que tendo que de certa forma se

assemelhar a figura masculina para que se tornasse notável, já que a

tendência é marcada por ombreiras gigantes, silhuetas quadradas e

modelagem maximizadas, aspectos que tinham o propósito de esconder o

corpo, renunciando o posto de ‘mulher objeto sexual’, analisando esse

incômodo nos dias atuais é inevitável não arrebatar o machismo embutido na

tendência, porém foi uma das formas que as mulheres da época encontraram

para marcar sua força e competência em profissões e posições que eram e que

a ainda são dominadas por homens.


Há quem diz que a origem do Power Dressing pode ser dedicada ao terninho

da Chanel, de 1920, se o start para essa tendência surge ou não em 1920, não

podemos confirmar, mas o que  podemos admitir é que mesmo que a roupa

tenha um significado controverso em determinados ambientes, a moda associada a luta das mulheres por igualdade vem ao longo da história

estabelecendo símbolos de resistência como o surgimento das flappers girls –

uma mulher que através do vestir se mostrava uma mulher livre, ousada e

pronta para tomar as rédeas da sua vida, a forma como se vestiam e se

maquiavam era dita como exagerada, assim como o beber e o fumar, ou seja,

rompiam com o modelo padrão que a sociedade impunha às mulheres e foi

por isso que tiveram um papel preponderante na evolução da sociedade ao

romperem com tradições conservadoras que limitavam o papel da mulher não

lhes dando oportunidade para se emanciparem, entretanto, as bainhas

voltaram a cair e o estilo recatado volta no início da II guerra,

as flappers marcaram a história da moda assim como as minissaias na década

de 60, momento onde os jovens começam a adquirir uma maior consciência e

os movimentos sociais ganham força e aliados, pela primeira vez a sensação

de que a juventude tem o poder de reagir as antigas regras se consolida assim

a moda simbólica, as minissaias passam a ser um símbolo de resistência em

um momento histórico que as mulheres descontroem com veemência a mulher

‘do lar’, a libertadora pílula anticoncepcional chega e o sexo dito como frágil

passa a assumir outros papeis passando a ocupar de forma significativa as

universidades.

As minissaias tornam-se um dos maiores símbolos dessa liberdade recém

conquistada, o vestir deixa de ser algo puramente estético e passa a ser um

ato político, uma contestação dos padrões sociais sendo inclusive adotadas

como indumentária essencial nos protestos feministas. O mundo fashion

oprimiu muito as mulheres na história, porém o corpo feminino, a moda e o

feminismo apurados de forma consciente se transformam em um mecanismo

de força e resistência.




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