Arte: a brecha no sistema

(Ensaio)

Você já deve ter ouvido inúmeras vezes alguém falar “nós somos o que consumimos”, ou “somos o que escolhemos nutrir nossas mentes”, ou até mesmo “somos influenciados pelo nosso redor”. Bem, essas pessoas não estão muito erradas. É a partir das experiências vividas, e em contato com outras subjetividades, que moldamos nossas realidades. Narrativas podem ser construídas considerando o conhecimento acumulado em nossas memórias. Se em nossas voltas vemos cartazes com corpos ”perfeitos”, produtos para ficarmos “perfeitos”, são imagens e ambientes que vão ser refletidos no nosso dia a dia nos influenciando de maneira que nem percebemos, até que não suportamos mais e começamos a mudar a nossa realidade ao mudar o que nos rodeia. Paramos de seguir usuários do instagram, de entrar em lojas e de comprar tais revistas. E é exatamente assim que a arte funciona.


Não só o seu poder da estética, do agradável, do intelectual, a arte tem um grande poder social, de quebra de sistemas. Ela é capaz de impulsionar valores e hábitos e de dar forma as realidades. Mas como ela chega a esse ponto?

Muitas vezes a arte só é reconhecida quando é inédita. Como estudante de moda, tenho a pressão de reinventar o design, de criar algo que nunca foi produzido anteriormente. Só somos relevantes quando quebramos o sistema. Como diz o filósofo John Dewey, a função da arte é a de buscar uma quebra de expectativas, desequilibrar um sistema de crenças, tendo em perspectiva a busca de equilíbrio em novas configurações do pensamento.

E se falamos de arte de ruptura, estamos falando de vanguardas. As artes que estão em nossas músicas, nos banners, nos livros, na moda, entre outros, acabam influenciando nossas vidas e consequentemente, as mudando. Brown e Dissanayake vão considerar o papel da arte operando no sentido da continuidade, entendendo a atividade artística como uma estratégia para a manutenção da estabilidade. Nesse sentido, as artes também são o principal meio de manter a harmonia social e a melhoria dos conflitos internos nas sociedades. Como fizeram os Muralistas Mexicanos, com a intenção de unificar o povo após a Revolução Mexicana.

Em tempos de crise, a estabilidade sistêmica depende mais das estratégias de ruptura e inovação, do que aquelas comprometidas com a continuidade. Principalmente quando a vontade de mudança e a insatisfação são um dos maiores movedores da arte, como com a recusa ao passado, exemplo do Movimento Futurista ou a vontade de uma identidade forte, como o modernismo brasileiro.

Assim, não só como a arte, a filosofia e a literatura são produtos e produtoras de uma cultura, como também são ferramentas para as contradições e os questionamentos de tais culturas, não significa que sejam meros reflexos ingênuos ideológicos da sociedade que estão inseridos, as artes têm a total capacidade de quebrar um sistema que influencia milhares de pessoas.


Como diz a professora do Departamento de Artes Plásticas da ECA/USP, “A arte é um ato de consciência crítica e sua função é pôr a nú os aspectos negativos da sociedade contemporânea e apontar, ao mesmo tempo, para a possibilidade de um resgate do futuro”. A arte nos dá uma brecha no sistema para moldarmos o nosso mundo, de protestar e produzir o que queremos ser como cultura, sociedade e natureza.


3 visualizações