Contra cultura e o manifesto anti-fashion

(Matéria)

As artes e a moda têm um grande poder de trazer as coisas para a luz, os pensamentos, os sentimentos, os medos e os desejos. O ato de se expressar artisticamente expõe nós mesmos contra nós, ou melhor, a própria sociedade contra ela mesma.

Ao observarmos movimentos de contracultura, eles sempre têm uma coisa em comum, a insatisfação. A vontade de mudar o vigente, ir contra a cultura a priori, mas não necessariamente isso é um pensamento concreto. Acontecem de maneira instintiva conforme o pensamento revolucionário.


No Brasil, um grande movimento foi o Tropicália, além da música, teve uma forte estética na moda, resultado de um clima de medo e repressão, durou apenas um ano, entre 1967 e 1968, o cenário era de uma Ditadura Militar, a falta de conexão social e o avanço da era moderna com pílulas anticoncepcionais, drogas sintéticas, e o crescimento de uma nova classe média decorrente da industrialização, levaram ao movimento contestatório.

Foi uma mistura de cores e sons, samba e guitarra, de hippies e de pop art, linguagens se misturavam se transformando em uma expressão única de identidade nacional e as roupas complementavam para expressar a sua estética.

Foi a Regina Boni, a principal figurinista dos artistas, que criou a maioria das roupas e dos figurinos da época. O seu pensamento era fragmentário e de miscigenação, ela diz que: “Rejeitava-se a ditadura da moda rompendo-se as costuras e as penses. Era uma ruptura de comportamento: ruptura moral, política, sexual e social. Propunha-se liberdade de expressão, a busca de uma nova estética: da estética do amor. A roupa é uma linguagem. Minha minissaia era quase na calcinha; usava veludo de seda, que era muito sensual, e muita coisa que encontrava em bazar e em brechós: plumas, bordados e lantejoulas. “

Não existiam regras, tudo era permitido, sem restrições ou limites de formas ou materiais. Efeitos ópticos eram arriscados e abusados pelos novos efeitos da televisão, sem medo de chocar, roupas de plástico, vinil, strass e aplicações eram utilizados.

Nessa nova perspectiva, era rejeitado cópias ou reproduções de modelos internacionais. Eles desejavam soluções e criações brasileiras, valorizando o Brasil, sua fauna e flora, seus discos, sua bandeira, suas cores e suas paixões. Regina diz que se perguntava “Que reação a gente quer causar no público? ”, e a resposta era de: “roupas procuravam romper com a prisão que era a roupa naquele tempo, que obrigava a pessoa a ter uma determinada postura para sentar, para levantar, para se mexer. Comprava em bazar antigo no Brás, na Mooca, vinham os tecidos, os botões de época, eu usava tudo. Fazia casacos de pele de coelho, que hoje em dia está na moda, mas fazia em rosa-choque, amarelo, verde. E também minhas roupas eram baratas. Era uma política de democratização da moda. ”

É importante destacar que o movimento tinha aquela estética não por ter sigo organizada para ter esse produto final, foi a “intuição”, o fato da figurinista não querer buscar tecidos em um sistema de distribuição, que a fez buscar peças em brechós que resultou na estética tropicália. Como os punks, eles não pensavam “vamos usar alfinetes por que é legal”, eles eram contra o sistema, não queria gastar com roupas e até mesmo lavar as mesmas, por isso, quando fazia um rasgo, eles usavam alfinetes para fechá-los, o que acabou transformando em uma “estética punk. ”

E o que temos de contracultura hoje? A pesquisadora de tendências Li Edelkoort, em 2015, publicou o seu manifesto anti-fashion, no texto ela aponta as razões que tornaram o sistema de moda obsoleto, o primeiro ponto, ela diz que foi a educação da moda, universidades não avançaram com o tempo, “ensinando métodos do século 20, celebrando o individual”, invés de ensinar a trabalhar em grupos, fazendo com que a capacidade criativa dos estilistas seja deixada de lado. Em segundo, a materialização, “os alunos não são mais instruídos na criação de tecidos e só tendo conhecimento básico sobre roupas”, assim Li brinca que vamos acabar vivendo em um mundo de apenas, jeans, nylon e jérsei.

Em terceiro a manufatura, com as roupas sendo fabricadas em empresas que exploram os trabalhadores, as roupas acabam “custando menos que um sanduiche”, as pessoas, o seu processo é desvalorizado, passando a mensagem de que a moda não tem valor. Em quarto lugar, os designers, Li explica que hoje, não estão preocupados em desenhar roupas diferentes, apenas transformar o que é do passado, “com a falta de inovação conceitual, o mundo está perdendo a ideia de moda”.

Em quinto, o marketing, está manipulando o desenvolvimento de criações, produtos, vendas e apresentações, “ todos os aspectos estão sendo vistos de uma perspectiva, que é como produzir melhor. Não como produzir um produto melhor ou como produzir uma cultura melhor”.

Em sexto lugar, temos a apresentação, emoções ficam difíceis de se passar por desfiles, já que todos estão lá, sentados, mas acompanhando tudo pelo seus smartphones, Li se pergunta, “não deveríamos mostrar as roupas de outra maneira? ”. Em sétimo, está a propaganda, o uso de famosos em fotografia e pouco uso de poemas, palavras, de uma voz, todas campanhas estão iguais, tão iguais que nem conseguimos diferenciar os valores de cada marca.

Em oitavo, temos a imprensa e os blogs, Li explica que muitas pessoas que não tem um estudo em jornalismo ou cultura em geral estão escrevendo sobre roupas, passando a informação, dando opiniões invés de críticas de um ponto de vista profissional. “ A moda está desconectada da comida, as roupas não têm nenhuma conexão com a cultura, a beleza não tem nenhum background...”.

Em nono, o varejo, “desde de que o século começou, não vemos um novo conceito de comprar”, a experiência é a mesma, os formatos das lojas são os mesmos que não faz jus ao movimento fluído do consumidor de hoje. “Um novo jeito de vender roupas, não de moda”.

E por último, em décimo lugar, o consumidor, “ os consumidores de hoje e amanhã vão escolher por eles mesmos, criando e desenhando os próprios guarda-roupas. Eles vão compartilhar as suas roupas, já que ser dona delas não significa mais nada. Eles vão alugar roupas, emprestar, transformar e encontrar roupas nas ruas. ”

Com essa análise, podemos repensar o que estamos produzindo para o mundo, criar uma nova cultura em função de melhorar o presente e o futuroo, encontrar novas maneiras de aprender, expressar e produzir, a cima de tudo, valorizando a moda que tanto foi atomizada a fastfashions e campanhas de artistas que não fazem o maior sentido, sem um objetivo de agregar a cultura e a nós, humanos.


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