Corpo Político

(Artigo)

A partir de quando o conceito de moda passa a existir? Em torno de um cenário, cada grupo se representa pelo corpo e objetos adquiridos, uma relação com o meio que vive. Quando a moda passa a ser uma escolha e não um cenário de sobrevivência? Quais são os sentidos disso para ser considerado moda? Durante anos, marcas de luxo de origens italianas e francesas, ditaram o mundo da moda e, consequentemente das tendências cujo traziam à tona as novidades e particularidades de suas coleções.


Porém, ao longo dos anos, esse papel anda cada dia mais invertido, pois a moda de rua tomou conta, e os clientes tem um grande poder de influência em cada marca que é considerada seu público-alvo. Muitas vezes, nem eles mesmos sabem disso. Isso acontece por diversos fatores, desde estudos de antropologia e semiótica, quanto marketing e comunicação. Hoje em dia, muitas coleções são inspiradas em assuntos reais e demandas que devem ser supridas.

A moda é uma releitura de cada tempo, junto com a sua efemeridade se tem um desejo de mudança constantemente. O mercado da moda é fundamental para qualquer economia, levantando questões políticas, religiosas e sociais em todo o mundo. Permite a revelação de si e sua história. É sobre criar e identificar grupos. É mais do que julgar se alguém está na moda ou não, mas sim, enxergar um pouco melhor, de forma mais sensível, a personalidade por trás das roupas.

A cultura popular está constantemente bombardeando pessoas com tendências de moda, de arte, filmes e música. Estas, subsequentemente, dão origem a "gêneros" e estética específicos cujas pessoas com estilos similares podem formar uma comunidade. Novas tendências surgirão e novos grupos de estilo de vida nascerão. Isso é um ciclo. A busca pelo o novo é um ato do subconsciente projetado pela indústria da moda.

“O atual sistema de moda é caracterizado não pelasucessão de estilos homogêneos, mas pela fragmentação e pela incerteza (...). Os relatos pós- modernos veem a moda como oferecendo infinitas possibilidades expressão individual”. - Woodward, 2007: "Fashion: Making and Breaking the Rules." Why Women Wear What They Wear.

O consumo de moda está diretamente relacionado às questões sociais e econômicas de um período. Paul Poiret, por exemplo, é um designer importante para a história da moda e o empoderamento das mulheres. Ele era um designer francês que libertou o corpo feminino de formas construtivas. Ele estabeleceu seu nome para suas capas e desenhos simples, como a cintura alta, formas tubulares e kimonos. Enquanto isso, Gabrielle Chanel se destacou na época por seus famosos chapéus de velejador e seus desenhos com um toque masculino. Ela foi a primeira mulher a desenhar calças para outras mulheres. Coco Chanel é de grande importância para a história feminina.

Hoje em dia, os consumidores são cada vez mais críticos e possuem uma personalidade forte, sendo difícil manter uma fidelidade com uma marca apenas, pois existem tantos outros fatores e concorrentes, em jogo, que podem se tornarem obstáculos. E isso, é totalmente aceitável, pois uma marca forte no mercado deve tomar decisões de como se posicionar através de sua essência e identidade, missões e princípios... O que oferecem de diferente? Sualegitimidade, herança, tradição, qualidade e exclusividade? “O luxo implica umrespeito pelo outro, que busca no luxo uma forma de realização de suadignidade” – frase retirada do livro – “Luxo Eterno”, página 130.

Consequentemente, os grupos se diluem e vão misturando tendências tudo de uma vez só. Isso pode definir conceitos de subcultura: grupos de pessoas que possuem afinidades e pontos em comum, que compartilham valores e ideias através de um estilo de vestimenta e ideais. Presença de alternativos padrões a serem estudado, as composições são similares em relação a costumes, lugar, origem, socioeconômicas e etc. Espirito de um tempo, compartilhando um mundo agora, por estarmos mais conectados: “Estilo é usar a moda para falar de e sobre você. Sua personalidade, seu jeito, seu biótipo precisa ser respeitado na hora da escolha. Quando você consegue olhar para si mesma antes de vislumbrar a tendência, fica fácil tomar decisões. Estilo é selecionar apenas ascriações feitas ‘sob medida’ para suas características físicas e psicológicas”- Ferraz, Daniela e Moraes, Penha – “moda sob medida”. Página 27.

Para uma marca se manter atual no mercado, deve-se evoluir o estilo juntamente com a sociedade, acompanhando os seus passos e seu novo comportamento. Para a alta costura se manter relevante hoje, e atender uma nova gama de clientes, teve que mudar o olhar do o que é high fashion para atrair principalmente os millenials. Há um distanciamento entre o haute couture e o ready-to-wear, hoje em dia. Em ascensão as mídias sociais como canais de comunicação surge sub-culturas simultâneas, como exemplo: cultura do pop, trap, trash e hip hop. E tudo isso, pode mudar em questões de minutos, pois uma publicação nas redes sociais, pode viralizar para diferentes grupos e estilos. O Instagram é um canal que facilita a disseminação do streetwear. Tornando-se, o meio visual que ilustra como as massas começaram a fazer parte de um movimento de moda, onde qualquer um, em qualquer lugar, pode postar uma foto e ser reconhecido por vários. Tornando o“estar na moda” mais acessível.Nessa mesma perspectiva, como se auto promover e quebrar algumas dessas barreiras de padrão aceito do corpo pela sociedade. Ou seja, é uma nova forma de se expressar e se libertar, apenas com ato de escolhas de roupas e acessórios, que cada um se identifica. Nosso corpo também fala, e também se impõe, isso sim é um corpo político.

Com as suas raízes no skate, surf e hip hop da década de 70, o streetwear migrou de uma pequena sub-cultura para a atual realidade do que é considerado “alta moda”. Evoluindo desde os anos 90, com o poder do “mercado de estilos” onde misturar high and low fashion é sinônimo de um bom look, marcas como a Fenty, uma parceria de Rihanna com a Puma se tornou uma marca de luxo do grupo LVMH. Por pura estratégia de marketing ou pelo próprio design diferenciando, colaborações entre marcas é uma das maneiras que o luxo encontrou de se manter atual, e deixar de lado essa ideia, que quem dita a modae as tendências são as marcas “Top of Mind”. Parceria como Louis Vuitton eSupreme, trouxe para as passarelas jaquetas jeans, chinelos e pochetes, logo, escalando Virgil Abloh, designer da marca Off-White streetwear, como o novo diretor criativo para a linha masculina de Louis Vuitton. Tal mesclas pegam o“low” e o transformam em “high”. Pois, as marcas fazem pesquisas de mercadopara entender qual é a demanda real, e como abordar seu público de uma forma direta, e possivelmente, de sucesso, conquistando-o.

Com as novas gerações em busca de personalidade e exclusividade, o streetwear dá uma sensação de empoderamento, as parcerias entre marcas de luxo e as mais populares, como Adidas e Puma, temos uma certa democratização, com estoques limitados, transformando as peças em um grande desejo e necessidade. Como já mencionado anteriormente, esse estilo que vem das ruas, estimula a inclusão cultural, criando peças artísticas e mais esportivas, que ainda oferecem a exclusividade necessária para manter os consumidores estimulados a realmente querer fazer parte dessa cultura de moda e estilo de vida. Simplesmente, o streetwear atraiu as massas, incluindo celebridades.

Não só as roupas, o streetwear influenciou a imagem de moda, fotografia, modelos e cenários. Pode- se dizer que atualmente é uma fase de transição, padrões de beleza anteriormente pré-definidos estão sendo quebrados, modelos de diversas etnias, corpos e alturas fazem parte do casting. É uma fase de mais liberdade, celebração e cultura. Saindo das ruas e voltando para as ruas uma moda mais livre e globalizada. De acordo com as revistas I-D e Another Magazine, a

fotografia de moda hoje, está sendo marcada por uma imagem sensual nada sexualizada, com poses, gestos e posturas livres exalando o humor e a naturalidade. O corpo é uma ferramenta usada para trazer ideias e conceitos em função da roupa, “é capturado de maneiras mais humanísticas, sensíveis e muitas vezes surrealistas” diz a revista I-D em seu artigo:“chanching how the body isphotographed in fashion”. O corpo está sendo utilizado na imagem de moda para reverter o seu passado obscuro de uma beleza excessiva e perfeição, tais características que influenciam a comparação com corpos irreais, influenciado uma sociedade inteira a ter doenças como ansiedade, depressão e distúrbios alimentares. A não aceitação do corpo, levando a procedimentos estéticos e plásticas.

Em conjunto, é observado uma mudança de cenário nas passarelas, principalmente as com estilo street, não só as roupas, mas os corpos estãosendo usados para ter uma “voz”. Como de observado nas últimas coleções,marcas como Cavalera e Ellus, fizeram protestos em seus desfiles, demonstrando a inconformação com o estado atual da sociedade, incentivando a luta por um lugar melhor de se viver.

Podemos concluir, observando as diferenças entre as imagens de duas campanhas da Gucci, uma de 2000 e a outra de 2019 respectivamente. Nota-se a mudança de tempo, espaço, moda e corpo entre as duas, em uma onde é exalada a hierarquia social, padrões de estética e de beleza, com poses duras, manifestando poder e rivalidade em um cenário frio. Já a outra, é celebrada a desigualdade na estética, o humor, a espontaneidade, a união, com poses sem métricas e um cenário de rua despojado e descontraído, sem a pressão de pertencer aquele grupo exclusivo, e sim pertencer a uma cultura com significados e expressão.


9 visualizações