Descobrindo a Indústria da Moda Brasileira - Toritama

(Matéria)

Sendo uma estudante de moda em formação, estou começando a descobrir os mistérios e a realidade da indústria da moda no Brasil. Após assistir o documentário “Estou me aguardando para quando o carnaval chegar” vi uma realidade completamente diferente do que estava acostumada a ver, um mundo da moda regado por um trabalho totalmente árduo baseado na recompensa do capital até a exaustão.


Na cidade de Toritama, sem fiscalizações no trabalho, fábricas independentes produzem peças de jeans. Uma comunidade inteira construindo coletivamente, em ações repetitivas e conjuntas que se interdependem. Um estilo de vida em torno da fabricação da moda. Vidas em função da moda.

“Quem vem comprar em Toritama sabe que vai comprar a peça mais barata, vai comprar a peça de boa qualidade, no menor preço, e no volume que ele quiser. Isso sim, isso é a nossa marca. ”

Para manter a “marca”, as fábricas têm um modelo de negócio onde ser precário é necessário. Com os preços baixos vem o alto volume de vendas, para manter os preços, a estratégia de produção é distribuir as atividades produtivas para as facções, onde é negociado o pagamento por unidade do que foi produzido, tal prática que gera uma fragilização para as relações de trabalho. Essa fragmentação na cadeia de produção acarreta o alto grau de informalidade das empresas. Assim, as fábricas tendem a não conseguir arcar com a estrutura legal e tributária, como também com os direitos de seus funcionários.

Um choque cultural para mim, o formato do trabalho, da economia e principalmente, do objetivo em comum da cidade de chegar até o carnaval, me fez abrir os olhos para o impacto de uma simples calça jeans que está no meu armário. Todos os seus processos e o verdadeiro valor de uma peça.

Em uma cena do documentário, mostra um homem vestindo roupas completamente diferentes do que todos em sua volta, ele diz ser o próprio manequim de suas criações, está na rua mostrando o seu trabalho, suas peças jeans. Acredito que ele não acompanha as últimas tendências das passarelas de Paris e muito menos sabe sobre zeitgeist, análises de tendências ou o que a Gucci fez na coleção passada, aliás, ele nem deve ter tempo para isso. Ele criou um colete com recortes e aplicações e orgulhosamente mostra para todos e diz que o povo gosta de detalhes, peças com detalhes são as que mais vendem. Um mundo da moda próprio, criado pelo jeitinho brasileiro, se virando com o que tem e aprendendo com o fazendo, qualquer um pode fazer parte e todos de certa forma, todos fazem parte.

Ele é o estilista, sem estudo prévio, notou o que os seus clientes gostam e livremente faz o que bem quiser, assim, será que ele é mais livre para criar do que os estilistas de São Paulo que se prendem a tendências de fora? Notei que o que mais prende todos nas fábricas é a sensação de liberdade. Você não tem uma carteira assinada, então se quiser pode ficar o dia inteiro trabalhando, como também você é livre para ficar uma hora se preferir, porque você ganha o que produz, um bolso costurado vale R$0,10 centavos. Ou seja, o quanto você ganha por mês só depende de você. O que é bom, já que você é livre e consegue ganhar mais.

Não querendo romantizar as fábricas, percebo que a indústria da moda em Toritama, diferente de qualquer outra, a população tem a moda como um meio de significar o mundo em que vivem. Não que seja uma escolha própria, mas foi o meio que acharam em ser “livres” e ganharem o seu dinheiro ainda com o grande incentivo de viajarem para a praia no carnaval.

A indústria da moda não tem um histórico no Brasil como tem na Europa, aqui ela chegou apenas como um modo de produção. Assim, vejo que ela não tem o fator de pertencimento para nós. O que é de fora é o “cool”, é tudo que queremos ser. Logo, quando vejo Toritama, com algumas pessoas se aventurando e produzindo suas próprias peças independentemente, nessas peças sinto o pertencimento que tanto faltava. Peças do Brasil para o Brasil.


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