Divergências entre o Modismo Ambiental x Consciência Ecológica

(Matéria)

Não é novidade para absolutamente ninguém que falar sobre sustentabilidade está longe de ser uma pauta fácil e que não levante olhares arredios, feições de dúvida e uma série de outras coisas mais. O motivo para tudo isso Infelizmente está longe de ser apenas um.


Para entendermos as divergências entre o modismo ambiental e a consciência ecológica, antes de mais nada, é necessário pensar o passado. Afinal, para entender como chegamos até aqui, nessa discrepância entre uma coisa e outra, é necessário voltar ao século XVIIII. Ou

melhor, ao finalzinho dele.


É notável que a partir de 1760 a história da humanidade toma outros rumos. O grande marco?

Indiscutivelmente é o início do processo da Revolução Industrial, a qual alterou as formas de

organização social, a economia e claro, o meio ambiente. Falando nele, é histórico o fato de

que as populações de qualquer parte do planeta, em qualquer época que seja, para assegurar

sua sobrevivência e a das gerações futuras, utilizaram-se dos recursos ambientais a sua volta,

o que na Revolução Industrial, não poderia ser e não foi diferente.


Entretanto, essa utilização de fontes naturais em muitos casos frente ao acúmulo

consequente de riqueza, bens de produção e amplitudes industriais, decorrentes de

mudanças socioeconômicas subsequentes, segundo Pedrini (1997, p. 21), “praticamente

extinguiu alguns dos recursos que poderiam ser renováveis”.


Com isso vemos – com pesar, muitas décadas depois- a questão ambiental enfim entrando

em pauta. O motivo? Ter se tornado um problema significativo mundialmente, por meio da

constatação de ecossistemas degradados e pela falta de qualidade de vida dos povos,

presente, e inquestionavelmente, futura.


Segundo Marina de Luca, fundadora do Moda Limpa, se continuarmos destruindo o Planeta

Terra como estamos fazendo hoje, iremos caminhar, de fato, para uma extinção da

humanidade, o que pode ser entendido a partir de duas vertentes: o próprio caminho da

natureza, afinal nós, seres humanos, somos parte dessa natureza. Ou pelo caminho que nós

como coletivo estamos desenhando há muitos e muitos anos.


Marina ainda diz que “outra opção seria de fato conseguirmos mudar de forma radical o

futuro do planeta Terra. Mas nesse caso estamos falando para muito além de uma

transformação do indivíduo e sim de uma revisão das decisões principalmente ligadas a

grandes governantes e empesas, que possam contribuir para regenerar o que sobrou do

Planeta Terra”. Nesse sentido não podemos deixar de lado a construção do meio ambiente

como pauta, seu decorrente modismo ambiental e a importância de se priorizar, sempre, pela

consciência ecológica.


O meio ambiente como pauta:

Em 1968, na Itália, foi criado pelo industrial Aurélio Peccei (top manager da Fiat e da Olivetti)

e pelo cientista escocês Alexander King, o Clube de Roma, no qual cientistas, políticos e

industriais se juntavam para discutir problemas relacionados ao consumo, às reservas de

recursos naturais não renováveis e ao crescimento da população mundial até o século XX.

O clube que viria a ser amplamente estudado na educação ambiental, foi também, o marco

que iniciou uma série de conferências mundiais que buscavam pensar o meio ambiente para

além da primeira página. Ou seja, para além do que até então se pensava, considerando sua

degradação passada, presente e futura. Dentre elas destacam-se: Conferência de Estocolmo


(1972), a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental de Tbilisi (1977); Eco-

92 (que por sinal ocorreu no Brasil); Rio+10 (2002); Rio+20 (2012).


O que é irrevogável dizer é que as discussões efetuadas nas conferências internacionais sobre

o meio ambiente e a ampla divulgação dessa temática na mídia fez com que as pessoas

passassem a conversar mais sobre o assunto, e enfim torná-lo palpável como é hoje.


O modismo ambiental:

Mas até que ponto essa palpastes é verídica? Ainda que atualmente o discurso ambiental

permeie os diversos setores da sociedade e é, inclusive, uma das principais causas defendidas

por grandes marcas de moda, há quem tire apenas proveito financeiro da situação. Não é raro

vermos campanhas, publicidades e quiçá propósitos de marcas respaldados em puro

marketing ambiental, que por sinal, certamente movimenta grandes somas de dinheiro.


No entanto, cabem aqui algumas perguntas: quanto do discurso ambiental é de fato

convertido em ações pró-ambientais concretas por essas empresas? Quanto do dinheiro

arrecadado com o marketing ambiental é de fato aplicado em melhorias na qualidade

ambiental por parte dessas marcas que comercializam produtos “ecologicamente corretos”?

Ainda hoje essas brands e big brand valem-se apenas do fashion washing (ou green washing)

como posicionamento real de mercado?


A resposta a essas perguntas ainda é: “muito pouco”. Afinal falando-se de moda, para muitas

delas, adotar um discurso ecologicamente correto ou apostar em produtos com estampas

ecológicas significa apenas estar na moda. Esse modismo ecológico, apesar de ter o mérito

de manter o foco na questão ambiental, não representa um compromisso com a proteção ao

meio ambiente. Por quê? Simples: pois não resulta de uma conscientização efetiva.


Complementando essa linha de raciocínio segundo a fundadora do Moda Limpa, é válido dizer

que “ainda que finja ser sustentável, o modismo ambiental serve de algo. Essas mudanças

(ambientais) devem ser estruturais, e para serem estruturais, é preciso haver o modismo

ambiental como uma forma de promover (ainda que em pequena escala) ações individuais.


A consciência ecológica:

Em paralelo, vemos o que pode ser a raiz não dos problemas, mas sim das soluções: “Pela perspectiva

do clima a gente tem previsões de vários e vários cientistas que dizem que precisamos diminuir a emissão de gases do efeito estufa até 2030 para diminuir o impacto das alterações climáticas. Por esse lado, bom, nós perdemos muito tempo com o governo Trump assim como estamos perdendo com o governo Bolsonaro, para de fato a sociedade entenda o que está em jogo: que é condições estáveis de vida na terra. Então, frente ao retrocesso e a essa narrativa de negacionismo, precisamos de uma

população engajada com o tema, se não nós prevemos um cenário baste precário. Dessa forma a consciência ambiental (e social) é mais do que importante para o futuro da humanidade.” É com as palavras de Marina Colerato (fundadora do Modefica) que entendemos a importância da consciência ecológica, e claro, ambiental.


Extremamente divergente do modismo ambiental, essa consciência preza, em linhas mais gerais, pela supremacia e avanços reais das pautas socioambientais pelo bem da própria humanidade. Entretanto, trata-se ainda de um âmbito pouco explorado, no melhor sentido da coisa toda. Marina diz que “estamos vendo que os avanços são muito tímidos em relação as pautas socioambientais principalmente quando essas são endereçadas por corporações. São avanços muito imagéticos no âmbito de uma representatividade estética ou midiáticas, mas que não se concretizam em políticas na prática, o que acaba gerando um diversionismo, uma falta ideia de que as coisas estão mudando.”


Ainda que as dificuldades sejam muitas e o avanço tímido, não temos como negar: é apenas no

entendimento do que difere o modismo ambiental da verídica consciência ecológica/ambiental que transformaremos o sistema da moda, as grandes e pequenas marcas, os hábitos de consumo coletivos e individuais, e claro, o mundo, em um lugar melhor. Para nós como humanidade e como seres integrados a um bem e a uma natureza muito maior.


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