Francesca Córdova

(Entrevista)

Essa semana tive o prazer de entrevistar a designer Francesca Cordova, após assistir uma palestra contando um pouco sua história e visão sobre moda e a sua indústria, fiquei encantada e fui querer saber mais, Francesca cria sua identidade pautada na valorização do humano, no vestir com significado e no olhar contemporâneo sobre o feito à mão.

Ela acredita que a Moda tem o poder de transformar e modificar o entendimento das pessoas sobre o mundo, o outro e sobre si mesmas. Participa do Brasil Eco Fashion Week desde a primeira edição e é idealizadora do projeto Manus Movement que incentiva um novo olhar para a indústria da moda.


Gostaria que você primeiro contasse um pouco sobre você e sua relação com a moda. Muito obrigada por aceitar este convite. Está sendo uma honra escrever sobre o seu trabalho.

"Minha relação com a Moda é intensa! Atuo de várias maneiras - consultoria, mentoria, cursos, com minha marca própria- desde o início da minha vida profissi

onal decidi que queria seguir um caminho autêntico e que gostaria de contribuir para que a Moda existisse de verdade no Brasil. Uma escolha desafiadora, empolgante, frustrante às vezes, mas quando a gente ama o que faz e é fiel a nossa verdade, fica mais fácil enfrentar os obstáculos”.

Qual é a importância de um produto feito à mão, principalmente considerando o momento que estamos vivendo e o estado da moda brasileira?

"Para mim, o feito à mão representa o resgate de uma série de valores perdidos ao longo do tempo e quando colocamos as pessoas em contato com o manual, temos a oportunidade de resgatar. Agora, por conta da pandemia, me parece que esses sentimentos e valores estão sendo enaltecidos: amor, afeto, relações mais humanas, reaprender a perceber o tempo, estar presente, vida em família, quietude, etc... Tem sido um momento, que apesar das dificuldades, acredito, nos fará bem.

A moda brasileira, sinceramente, não existe na grande mídia. Infelizmente fomos educados para copiar. Nossas referências, a forma como aprendemos a atuar no mercado, não estimula a autenticidade. Também não acredito em nacionalidade da moda, o que acaba sendo reconhecido é o conjunto, é a quantidade de profissionais que atuam numa mesma direção, no sentido do único (o made in Italy, por exemplo, é um conceito (já foi mais forte e com certeza será retomado com toda intensidade pós covid.)que privilegia a qualidade, o fazer local, a manutenção do saber, etc...por consequência, essas características tornaram as marcas e designers italianos reconhecidos. É um processo cultural e ao mesmo tempo individual”.

Como podemos ressignificar a matéria prima nacional para um produto de alto desejo?

"Mal temos matéria prima nacional... algodão, seda. Muitos tecidos, que são fabricados aqui utilizam fios importados. O mais importante é entender para quem se quer desenhar e que mensagem você deseja transmitir. A partir daí, você saberá o que fazer e isso será natural”.

Lembro de você dizer que o universo "loja" precisa ser substituído. Você vê alguma alternativa para o modelo de Fast Fashion que estamos tão acostumados?

"Em primeiro lugar precisa acontecer uma mudança da percepção do consumidor sobre valor. Com o fast fashion perdemos a referência de quanto vale realmente uma peça. Por outro lado, as marcas de luxo extrapolam nas suas margens de lucro sem entregar realmente algo autêntico (mercado nacional). No fim, o consumidor escolhe se quer pagar mais caro (status) ou mais barato pela mesma proposta de estilo.

Acredito que a loja deve mudar completamente, a abordagem de venda também, mais humana e voltada para as pessoas. Vendedores que empurram produtos não terão mais espaço (uma das razões de muitos preferirem o fast fashion (fora preço) é não precisar" enfrentar" o vendedor). Ressignificar é desconstruir a imagem e conceito que temos hoje sobre o vestir e construir uma nova abordagem. Existem infinitas formas de se fazer isso, mas é preciso coragem para romper paradigmas e muita determinação para persistir em caminhos que poucos querem trilhar".

A moda brasileira sempre sofreu com a sua própria identidade, como você usa o seu processo criativo afim de trazer uma moda manual e criativa?

"Primeiro eu ignoro tudo... não olho para a moda, olho para o mundo, as pessoas. Amo design, arte, adoro ver como as coisas são criadas. Meu processo criativo tem inicio em comportamentos que identifico e em macro-tendências. Porém, escolho sempre algo que não concordo como ponto de partida, algo que acho importante contestar e propor uma perspectiva diferente. Por exemplo, o uso exagerado das tecnologias, ou a falta de liberdade (muito antes da quarentena) com o uso de nossos dados pela inteligência artificial, são exemplos de assuntos que me interessam debater. Mas não sou ativista, não levanto bandeiras de certo e errado, minha intensão é sempre apontar outras direções, que podemos fazer outras escolhas".

Lembro de você comentar que hoje em dia temos muitos desfiles com uma alta produção/styling e pouco produto de fato, qual solução podemos ter para uma moda mais autentica e com liberdade artística?

"Essencialmente mais tempo para desenvolver ideias. Há anos critico o fato das grandes marcas terem adotado o calendário fast fashion como solução à cópia, a se manterem "a frente". Isso acelerou tanto o processo criação-ponto de venda, que ficou impossível criar novos conceitos. Hoje, com tudo o que estamos passando, algumas marcas como Armani, YSL, já se posicionaram para o retorno de um calendário mais lento. Na verdade a grande inovação na moda hoje, é justamente resgatar processos e modos de fazer antigos e trazê-los para o presente. As marcas terão que reaprender a criar e as pessoas terão que reaprender a comprar de maneira mais espaçada, pagar valores mais adequados em peças de maior qualidade e durabilidade.

@francescacordova

@francescacordovalab


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