(IN)ADMIRÁVEL MUNDO NOVO: a roupa como ato político.

(Ensaio)

“Estabilidade. Não há civilização sem estabilidade social. Não há estabilidade social sem estabilidade individual”. E como a teríamos em um mundo como no qual estamos vivendo?

Confesso que reli um dos meus livros preferidos da minha infância assim que a quarentena começou, muito como uma forma de esperança quanto a um mundo futuro o qual é (muito) incerto. Mas hoje, quase três meses depois, releio a passagem acima, escrita pelo célebre Aldous Huxley, com um olhar e um sentimento muito diferente.


Um mundo que já parecia estar sofrendo demais, nos mostrou uma faceta antiga, dolorosa e desumana, aonde agora máscaras se misturam a cartazes idealistas e a vozes que buscam justiça e aonde protestos antirracistas se entrelaçam a protestos anticapitalistas.


Como temos acompanhando, os atos que se espalharam por inúmeras cidades americanas, hoje tomam conta também das redes sociais, em um momento no qual o mais novo modismo social se constrói sob o pilar de que o coletivo é muito maior do que o individuaL, e aonde precisamos nos posicionar para mudarmos o (in)admirável mundo em que viemos.


Depois de ler uma matéria publicada no FFW (com o título “Omissão x Ação: o que moda tem a ver com protestos anti-racistas nos Estados Unidos”) comecei a me questionar: e a moda, como fica nesse cenário? Eu até poderia aqui citar que lojas da Gucci, Alexander McQueen, Hermès, Dior e Louis Vuitton, muitas das quais em peso possuem uma liderança majoritariamente branca, foram (e estão sendo) alvos de protesto e saques. Mas o que estes significam frente ao caotismo do momento como um todo? Prefiro salientar as sábias palavras de Marc Jacobs: “Nuca deixem te convencer de que vidros ou propriedades quebradas são violências. Fome é violência, falta de moradia é violência. Guerra é violência. Jogar bombas é violência. Supremacia branca é violência. Falta de saúde é violência. Pobreza é violência. Contaminar fontes de água Para obter lucro é violência. Propriedades podem ser substituídas, vidas humanas não podem”.

Também quero salientar que aqui não posso falar da moda como a conhecemos. Apesar da moda como fenômeno, seja vivido por todos que se vestem e estão inseridos em um meio social, como indústria, ela está longe de partilhar um sentimento que não seja de desigualdade. É só lembrar que nos cargos de chefia, a maioria é branca. A minoria? Negra.

Mas posso falar de roupa. A roupa como extensão do nosso corpo, e dessa forma de nossas ideias e ideais, nesse momento abraçam nossos posicionamentos políticos, e vão as ruas (pelo menos como está ocorrendo nos Estados Unidos), vestir nosso sonho de um mundo menos desigual. Afinal vestir é mostrar no que acreditamos. Mas mais do que isso, a moda-indumentária como roupa e como forma de protesto, comunicação e produção cultural, apropria-se da linguagem não verbal, construindo narrativas vestidas.

Por fim , deixo aqui o mensagem endereçada à toda cadeia da moda, de Edward Enninful, negro, estilista e editor chefe da Vogue Inglesa: “Estou convencido de que precisamos combater o racismo, converter o conhecimento em anti-racismo. E precisamos fazer isso juntos. A moda tem um papel a desempenhar nisso. Ocupa um lugar único no zeitgeist e possui uma capacidade singular de mudar mentalidades. Imploro às marcas de moda, publicações e varejistas que empreguem mais pessoas de origens diversas – acredito realmente que essa é a única maneira de efetuar mudanças reais. Precisamos de pessoas negras arraigadas na infraestrutura da indústria da moda, não apenas do outro lado da câmera ou aparecendo em um feed do Instagram. As pessoas precisam de um assento à mesa.”

Confesso que partilho Edward falou e acredito que essa seja a única forma de democratizarmos, pelo menos, o mercado de moda. Afinal de contas, a moda e a roupa são sobre pessoas. Seres-humanos. Vidas. E essas, sem dúvida alguma são diversas e de todos os jeitos e cores!


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