Moda como um sistema apoteótico de controle feminino


É fácil perceber que a moda está associada ao o espírito do tempo. A mudança no vestuário e nos itens considerados apropriados ou representativos de uma realidade sempre caminhou ao lado da história da humanidade, acompanhando seus costumes, valores e consciência. Nesse sentido, mesmo que indiretamente, é possível dizer que a mudança no vestuário feminino tem acompanhado a emancipação feminina. Se hoje você, mulher, está vestindo uma calça, saiba que há não muito tempo este era um item exclusivo do universo masculino. Sua presença no armário feminino é relativamente recente e fruto dos embates encabeçados por mulheres que ousaram questionar o status quo. A mesma lógica se estende à grande parte das vestimentas, como é o caso da evolução do espartilho. Evolução porque, surpreendentemente, ainda não nos livramos dele por completo. É bem provável que você esteja usando sua versão adaptada aos novos tempos neste instante: o sutiã.

Para entender como ocorreu o processo de modernização da peça e o simbolismo que ela carrega, precisamos fazer uma rápida viagem à sua origem. A concepção do espartilho, ou corset, remonta ao século XVI e à Inglaterra. Produzido a partir de barbatanas metálicas e com várias amarrações nas costas, sua modelagem tinha como finalidade reduzir a cintura, escondendo possíveis excessos abdominais, e manter o tronco ereto. Acessível à parcela mais rica da população e símbolo de prestígio social, o espartilho encapsulava valores morais tidos como fundamentais na época, vinculados à moralidade e feminilidade. Era, assim, peça fundamental no armário de qualquer mulher que quisesse ser respeitada e ter um bom casamento. Apesar das mutações que sofreu aos longos dos séculos, diferentes materiais e afins, o item sempre manteve o desconforto como principal característica. Era muito comum que mulheres se sentissem sufocadas e até mesmo desmaiassem em função da rigidez da estrutura do espartilho e da força empregada para que ele ficasse justo. Relatos que hoje encontramos em livros de história mostram que os desmaios eram bem vistos, pois reforçavam a suposta fragilidade feminina e davam a chance de homens mostrarem sua superioridade física e moral. Além do desconforto para respirar, a vestimenta também afetava os movimentos, alguns dos modelos impossibilitavam levantar os braços e sentar. Somente no início do século XX, quatro séculos depois de ser adotado pela parcela abastada da sociedade, opções menos desagradáveis começaram a surgir. A transformação foi consequência da Revolução Industrial, da entrada de mulheres no mercado de trabalho e do aumento de mulheres em práticas desportivas. Já a sua extinção aconteceu não muito tempo depois, e foi resultado de um dos mais tristes e sangrentos períodos da história: a Primeira Guerra Mundial. Como uma ampla parcela dos homens estava nas frentes de batalha, muitas mulheres tiveram que sair do conforto do lar para ocupar os postos deixados nas indústrias e no campo. O trabalho operário que muitas começaram a exercer exigia mais leveza e conforto, demanda que fez as cintas ganharem espaço. Apesar de liberar muitos dos movimentos antes limitados pelo espartilho, o acessório ainda não cumpria a função de sustentar os seios. Foi assim que o sutiã, criado em 1907 pelas mãos do modelista francês Paul Poiret, ganhou popularidade. Coincidentemente ou não, sua ascensão se deu na mesma época em que as sufragistas foram às ruas exigir a ampliação do voto às mulheres, momento conhecido como a primeira onda feminista.


Mais do que uma peça de vestuário que simbolizava decoro e beleza, o espartilho guarda uma estreita relação com as funções sociais que a sociedade sempre impôs às mulheres. Assim como o corpo feminino encontrava-se preso em um corpete modelador e limitante no que tange aos movimentos, as mulheres eram mantidas prisioneiras da função de mãe, esposa e dona de casa, além de ficarem confinadas no espaço de casa. Sendo assim, a vestimenta servia como ferramenta para manter a mulher sob o regime de rigidez social imposto pela dominação masculina. Habitando o imaginário coletivo como símbolo de aceitação e respeito, a peça inspirava obediência e docilidade. Dentre as justificativas para o seu uso, vale destacar a que atribuía ao espartilho a função de dispositivo de segurança para a mulher. De acordo com essa visão, seu fechamento hermético funcionaria como repelente aos olhares libidinosos dos homens. Em contrapartida, o corpo liberto representava uma ameaça à submissão que caracterizava a condição da mulher, colocando em risco a dinâmica de dominado e dominador que sempre foi a base da sociedade patriarcal. Na prática, corpos que não se submetessem às regras masculinas eram vistos e tratados como ameaça política e desestabilizadores sociais. O espartilho é apenas um dentre tantos exemplos de como a história da emancipação feminina está ligada de forma umbilical à libertação do corpo da mulher e de todos os signos que o compõem, inclusive as roupas. Mesmo depois de tantas batalhas capitaneadas pelas feministas e suas conquistas, nossos corpos ainda são usados como instrumentos de opressão. Ainda no exemplo do vestuário, basta notar que mulheres que optam por não mais usar sutiã são alvos constantes de atitudes e discursos repressivos. O ato de rejeitar o sutiã ainda é entendido como provocação e consentimento para comentários ofensivos e de cunho sexual.

Assim como aconteceu com aquelas que puseram um fim ao espartilho, mulheres que abandonam símbolos de dominação, como é o sutiã, ainda são vistas como subversivas e ameaças à ordem hegemônica. Se os costumes e valores de uma época, o tal do espírito do tempo do começo do texto, ditam a moda, podemos esperar um número cada vez maior de mulheres que questionam e dispensam o sutiã, exatamente pela carga simbólica que está embutida na peça do vestuário feminino. A queima de sutiãs que marcou a revolução feminista da década de 60 já anunciava que símbolos de opressão não têm mais espaço em uma sociedade que almeja ser livre e despida de moralismos. Por isso, precisamos lembrar diariamente que a luta pelo fim da dominação patriarcal é a luta pela libertação do corpo feminino e de todos os instrumentos que ainda remetem ao nosso aprisionamento.



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