Moda, Consumo e Sustentabilidade: Uma relação paradoxal?

Segundo Gwilt (2011), uma das formas mais fáceis de entender a sustentabilidade é através do tripé: social, econômico e ecológico. A moda por sua vez, pode ser pensada e estudada de diversas formas, como sistema econômico, como indústria de produção, como forma de expressão coletiva e individual, ou ainda, como fenômeno social.

Como fenômeno presente na atual sociedade, o consumo se consolida como um mecanismo indissociável da moda, no qual, as últimas décadas demonstraram que o mesmo se tornou respaldado pela geração do descarte, e a exacerbação da produção de vestuário, passou a ser sustentada pelo escopo da efemeridade do vestir.

Dessa forma, uma vez que a sustentabilidade segundo Brundtland (1987) pode ser compreendida pelo desenvolvimento que satisfaz as necessidades dos presentes de forma a não comprometer as habilidades das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades, não estaria a moda promovendo sentidos antagônicos à sustentabilidade, sustentados pela cultura do efêmero?

Pode-se dizer que sim. Por vezes a moda foi entendida em uma relação sistema-capital na qual os valores são construídos sob o predomínio do signo da efemeridade. Ou seja, sempre fora pensada e logo compreendida como resultado de mudanças fugazes e ordinárias do vestir. Nesse sentindo, o sociólogo Bauman constrói o conceito de comunidades guarda-roupa, no qual pela fragilidade dos vínculos sociais, os indivíduos primam pela curta duração do ciclo de vida das roupas, fazendo da inconstância uma constância, fundindo-se a uma cultura e a um consumo de massa. Logo essa relação de produção e consumo, ambos respaldados pela valorização do culto ao novo, o que faz com que haja uma necessidade latente de matérias primas, em meio a um mundo inserido em uma crise ambiental, não estaria validando como paradoxal a relação em que se constrói o dualismo moda/sustentabilidade?

  1. Consumo em massa versus sustentabilidade


Segundo Hoeks e Post (2006), enquanto a indústria do vestuário vende produtos, a indústria da moda não comercializa objetos e sim significados. Mas quais significados foram esses os quais foram sustentados pela lógica do fast fashion? Pode-se dizer que o culto ao novo, o qual como uma das características mais marcantes da sociedade contemporânea, se consolidada pela constante promoção de novas necessidades, o que resulta no adensamento do consumo, um fenômeno que regulamenta as ações sociais, políticas e cotidianas (BAUMAN, 2008), e com que por quase três décadas fez com que as modas, e o consumo do modismo vigente, fosse respaldada por desfiles incessantes e criações massificadas.

Essa aceitação natural da efemeridade do produto, da temporalidade curta ditada pela moda, propicia e revigora ainda mais o consumo (SIMILI, 2013). Roupas até então produzidas quase que totalmente de forma industrial – tornaram-se produtos materiais de primeira necessidade (BERLIM, 2012), mas que no atual momento da sociedade, precisam ser e estão sendo repensadas.

O trabalho e a produção tornando-se uma mercadoria e o consumo sendo respaldado pela clara e cada vez mais extrema obsolescência programada das roupas, faz com que a responsabilidade socioambiental tenha que partir para além da matéria prima e produção, caminhando também para o consumo.

Se estamos em uma era em que é preciso um reposicionamento perante o meio ambiente e as gerações futuras, é preciso refletir sobre como nos vestimos, o que compramos, como compramos, por que compras e que diálogo estamos travando com a natureza e com o próximo por meio da moda (BERLIM, 2012), afinal, a moda como produto do vestuário, acompanha a vida de qualquer ser humano do nascimento à morte, e faz com que consumir moda seja algo estritamente relacionado a humanidade.

Dessa forma, algo por assim dizer tão necessário e tão humano, por que por tanto tempo foi contra a lógica ambiental?

  1. Moda versus Capitalismo

Ainda que muito presente, na lógica do consumo de massa, a efemeridade aos poucos vem sido substituída ou ao menos repensada, por meio de uma crescente preocupação ambiental, a qual reformula e questiona a relação paradoxal moda/consumo/sustentabilidade que até então era vigente.

Entretanto produtos vendidos como conscientes principalmente em redes de fast fashion, os quais aparentam apresentar uma responsabilidade para com sua materialidade e sua produção, em grande parte estão sendo constantemente respaldados apenas as suas preocupações ambientais ao uso de fibras naturais e/ou materiais ecológicos, no qual por meio de ações de marketing e promoção de consumo, não transformam a moda em uma indústria 100% ecológica e que fazem com que a sustentabilidade esteja circunscrita apenas ao ideal do capital.

Dessa forma, a sustentabilidade na moda, ainda que extremamente necessária, se sustenta muitas das vezes apenas pelo pilar lucrativo, no qual frequentemente se consolida o fenômeno do "green washing" (injustificada apropriação de virtudes ambientalistas usadas principalmente pelo marketing).

Nesse sentido a produção da sustentabilidade na moda se constrói como uma mercadoria, perdendo seu valor e o real motivo de sua necessidade. Ou seja, ainda que a exacerbação da produção não possa ser tão mais sustentada pela efemeridade da moda, a qual passou a ser constantemente questionada, no meio social capitalista o qual a sociedade atual está inserida, muitas vezes, este inviabiliza a construção de uma indústria da moda 100% sustentável.

Conclusão



Somente o abandono da dicotomia entre o capital e o trabalho indica o caminho para que a indústria da moda seja plenamente sustentável (BERLIM, 2012). O grande paradoxo nesse sentido é o fato da moda ainda levar a sustentabilidade em seu cerne em apenas alguns aspectos de sua construção como indústria.

Dessa forma, ainda que a efemeridade da mesma venha sendo questionada e os meios de produção e consumo repensados de acordo com uma latente preocupação ambiental, a validação do vim do antagonismo moda e sustentabilidade só será possível a partir do momento em que essa indústria seja respaldada para além da preocupação para com o capital, e a sustentabilidade como a própria manutenção de uma nova simbologia do vestir.



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