Moda e a problemática da lógica capitalista

(Ensaio)

Da cultura do descarte a bolsas que custam muitos salários mínimos. Como a lógica de um sistema econômico colocou em prova até quanto pagamos por uma simples bolsa de marca? Sustentado pelo ideal da quantidade sob a qualidade, o capitalismo se consolidou, e fez da moda, pelo menos até o que conhecíamos antes do início da pandemia, uma indústria que se desataca por ser a que mais emprega e a segunda mais polui. Preocupante? O mínimo eu diria.

Com antíteses sustentando todos os pilares capitais da cultura material que circunda os entrelaçamentos existentes entre a moda e a lógica capitalista, podemos observar em uma mesma sociedade (e certas vezes no mesmo centro comercial) marcas que cobram 10 mil reais por uma peça de roupa, e outras que pagam 0,10 centavos de dólar pra quem a fez. E olhe lá, quando pagam isso. Mas por que a moda é assim? Por que a moda é serva do capitalismo na mesma medida em que se tornou dependente dele?


Para responder essas perguntas é necessário voltar nossa atenção para o período de transição da Idade Média (e do sistema feudal) para o início do que seria o capitalismo (aquele que atualmente é mais do que um sistema parasitário). O sistema capitalista nasce da crise do feudalismo, no qual cresce e se desenvolve uma nova lógica comercial. É importante falar que neste momento há uma mudança de um trabalho que até então era servil para um trabalho que passa a ser assalariado. Com isso surgem fatores que podemos falar que são recorrentes até os dias de hoje: economia de mercado, preocupação com o lucro e trocas monetárias.

Na ascensão da burguesia e de uma “nova classe” social por assim dizer, a indumentária passa a ser cada vez mais decorrente de uma intrínseca estratificação e diferenciação social. Com a necessidade “burguesa” de acompanhar as trocas de estilos adotados pela nobreza, e a nobreza trocando incessantemente suas vestimentas para que a burguesia não as acompanhassem, os modos e as modas começaram a ser levemente efêmeras, e desse momento para o que vivemos hoje, bastou a Revolução Industrial.

A Revolução Industrial salientou um sentimento que já existia: o de produção comercial. Mas dessa vez, de forma muito mais rápida e massiva. Além disso possibilitou o início do que conhecemos por tendências, de maneira muito mas ampla, proporcionando para as classes mais baixas (e não só a burguesia) a adotar os modismos vestíveis das classes mais altas da sociedade, por preços finalmente acessíveis.

Mas todo esse sistema rápido, efêmero e lucrativo tinha (e e tem) um preço, que alguém paga. Seja por meio de um trabalho ultra precário, seja cobrando preços exorbitantes por um produto que não é nada mais nada menos do que um produto. Quisá como outro qualquer. E que só demonstra (com seu preço e seus rótulos) novamente uma estratificação social.

É na lógica do “mais por menos” que a futilidade do sistema capital da moda se consolida. Com roupas a preço de banana e uma latente periferização, sob o tecido social em que se constrói a moda se consolida também a escravidão. Seja das tendências de gosto (pela imposição das treds da vez), seja do sistema de produção como um todo.

Entretanto, nenhuma outra cadeia é tão dependente do trabalho humano quanto ela. E em todos os sentidos. Das plantações de algodão as lojas de varejo, a moda é produzida por pessoas para pessoas. E justamente por isso, a moda como indústria, deveria fomentar um sistema muito mais humano, e muito menos desumano.

Para se ter uma ideia dos absurdos até então aplaudidos pelos amantes do capitalismo neoliberal, muitos dos trabalhadores que sustentam esse sistema de produção recebem míseros salários que variam entre US$ 2 e US$ 3 por dia. Além disso não têm registro nem qualquer benefício, não estão integrados a sistemas públicos de saúde ou aposentadoria.

E o que fazem os heads das grandes corporações com seus bolsos cheios de dinheiro? Culpam a terceirização. Mas afinal, terceirizado ou não, todo e qualquer trabalho que deveria ser fiscalizado? Sabemos que sim. Mas é nas bordas desse vestido de luxo ilusório que chamamos de Capitalismo que residem as mazelas sociais. O que atrela-se ao consumo e se consolida como a grande problemática do sistema capitalista para Marx.

O consumo cria o motivo da produção, assim como também cria o objeto que é ativo na produção como objetivo determinante. Ambos, a moda e o capitalismo dependem da dialética do mutável e do culto ao novo, afinal, para Marx um produto, uma peça de roupa, torna-se um produto real apenas quando usada, desgastada, consumida. O que por meio da obsolescência programada da própria roupa virá a estimular a produção e o consumo e outra roupa.

Ou seja, é na alteração da vestimenta que ocorre uma implicação no consumo. E é dentro dessa -errada- dialética de produção e de consumo que Marx está certo. Em Grundrisse, o pensador questiona as novas forças produtivas e a produção material. Está na hora de ouvirmos Marx e questionarmos o tio Sam. Afinal, por que, pra quem e por quem produzimos?


9 visualizações