Moda e Feminismo

(Matéria)

Foi durante a Revolução Industrial (1760 - 1840) que as mulheres começaram a participar de trabalhos que não fossem na agricultura ou domésticos. Mas não, não foi por questões de igualdade social, pelo contrário. Foi para “ajudar” os donos das fábricas a receberem mais créditos, mulheres e crianças começaram a trabalhar nas indústrias, ganhando um terço do que os homens ganhavam.

Elas eram exploradas pela necessidade de ganhar dinheiro, e assim, a indústria lucrou com a desvalorização do trabalho da mulher. Foi principalmente na indústria têxtil que as mulheres começaram os seus trabalhos, uma das industrias que mais se beneficiou da Revolução Industrial. Passando de um trabalho produzido manualmente, tradicionalmente por costureiras para uma produção em massa dentro de fábricas.

Assim, junto com a Revolução Industrial, protestos a favor de direitos sociais e igualitários emergiram em resposta ao estilo de vida precário que a vida nas fábricas era imposta. Em conjunto desses homens, mulheres protestavam exigindo salários iguais, de um lado pelo medo de perder seus empregos, do outro, o que podemos dizer, o início de uma luta feminista.

Mesmo com a Revolução abrindo espaço para mulheres trabalharem fora de casa, as que trabalhavam eram de grande maioria mulheres solteiras, e as casadas por pura necessidade financeira. Após a Revolução, o cenário encontrado era de uma mulher exigindo direitos, como por exemplo, o de votar (Nova Zelândia foi o primeiro país em 1893) e de atender as faculdades (em 1880 a Universidade de Londres foi a primeira).

Foi exatamente dentro de uma fábrica têxtil que se deu o Dia Internacional da Mulher, em 1911, em Nova York, uma fábrica que empregava 130 operárias, pegou fogo e carbonizou todas as mulheres, “no incêndio, morreram operárias num contexto em que feministas e trabalhadoras faziam forte mobilização pela igualdade na política e por melhores condições de trabalho” explica a socióloga Flavia Rios. Fato que ocorreu e comoveu muitas pessoas, gerando protestos e manifestações. Em 1975, a ONU declarou esse dia especialmente para as mulheres.

Apenas durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial as mulheres começaram a trabalhar em diversas áreas que antes eram consideradas apenas para homens. Mesmo assim, segundo a Administração de Segurança Social dos Estados Unidos, em 1940, a Indústria Têxtil foi a segunda área que mais empregou mulheres, ao total 2.3 milhões. A primeira, eram trabalhos domésticos dentro e fora de fábricas. Dados que mostram que o trabalho da mulher durante a guerra era visto apenas como uma extensão de seus “deveres” dentro de casa.

Após Guerras, muitas mulheres se sentiram pressionadas a ficarem em casa cuidando de suas famílias em vez de continuarem a trabalhar. Mesmo assim, muitas começaram a estudar e a trabalhar em cargos que antes não poderiam. No Brasil, a socióloga Saffioti explica como foi o nosso cenário: “as mulheres trabalhadoras foram empurradas para as ‘ocupações desenvolvidas a domicílio ou nas funções sub-privilegiadas do baixo terciário’. Ficaram à margem dos benefícios sociais prometidos pelo desenvolvimento capitalista e engrossaram os bolsões das atividades mais precarizadas como ‘costureiras, bordadeiras, serzideiras, trico-teiras, crocheteiras, para nada dizer sobre as demais ocupações desempenhadas em caráter autônomo’”.

Hoje em dia, a indústria têxtil no Brasil, é a área que mais emprega mulheres de todas as outras, 45% para sermos exatos (ABIT), e não podemos deixar de menciona-la quando falamos da sua inserção no mercado de trabalho, foi por seu cargo que elas conseguiram uma abertura e conquistaram direitos que antes não seriam possíveis.

Porém, também não podemos deixar de mencionar a exploração das mulheres nesta indústria, segundo a Global Slavery Index, 40.3 milhões de pessoas estão trabalhando em estado de trabalho escravo no mundo, sendo 71% mulheres. Em grande maioria, na Industria da Moda. Países como Coréia do Norte, Bangladesh, China, Vietnam e também o Brasil fazem práticas escravistas modernas.

Podemos acusar o Fast Fashion como um dos motivos para tal prática. Enquanto muitas marcas fazem slogans feministas com estampas em suas camisetas, do outro lado está uma mulher costurando no chão de uma fábrica sem condições básicas de higiene e trabalho, com um salário que não pode nem ser considerado como o mínimo.

Como já mencionado anteriormente, a indústria têxtil é a grande colhedora de mulheres a procura de empregos fora de seus lares, um dos motivos se deve ao fato de ser uma área que não necessita de conhecimentos acadêmicos e de fácil aprendizado. E historicamente, com essa inserção, grupos feministas saíram das industrias, protestaram e exigiram mudanças como a regulamentação de seus ofícios exercidos, o direito do voto, a inserção em faculdades e a igualdade salarial como feito em 1968, do lado de fora da Ford, 168 mulheres protestaram ao que levou ao Equal Pay Act of 1970. Grandes feitos que reconhecemos até hoje.

“Feminista: a pessoa que acredita na igualdade política, social e econômica dos sexos.” - Chimamanda Ngozi Adichie.

Foto: Interior da fábrica Brasital, Salto, São Paulo, 1920. Museu de Salto.


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