MODA PANDÊMICA: NOVOS HÁBITOS DE CONSUMO EM MEIO AO CAOS


Ao refletir sobre o que escrever acerca do varejo de moda nesse momento tive como ponto de partida as reflexões feita por especialistas que tenho acompanhado pelas redes sociais. Uma das frases que me chamaram atenção foi a seguinte: “Novos hábitos foram criados e vão continuar com ou sem vírus”. Outra inspiração foi a frase “A crise mostrou quem de verdade tem um negócio, e quem somente tinha um ponto de venda.”


Ambas as frases nos remetem a percepção de que o mundo alterou a forma de se fazer negócios de uma vez por todas e independente do vírus é preciso inovar constantemente. Alfredo Soares é autor do best seller BORA VENDER. Em sua mais recente publicação BORA VAREJO diante a cena da pandemia, o autor reuniu os principais insights da série de lives que realizou com vários especialistas em varejo. Alfredo tinha como objetivo compreender o comportamento do consumo, a evolução do mercado e como a capacidade de resiliência do varejo tem trazido boas práticas, ainda que, em momentos de crise. 


Empreender já é um grande desafio por si só. Engana-se o empreendedor que acredita que crises não existem e que jamais podem afetar o seu negócio. Ser empreendedor é perceber que no caminho do sucesso é preciso tentativa e erro. O tradicionalismo deve se permitir inovar e sair da zona de conforto empresarial. 

No que consiste ao segmento de moda é inegável que ele foi um dos que mais sofreram com o fechamento dos espaços físicos, pois, como a maioria dos negócios ancoraram seu modo de relacionamento com o cliente em apenas uma mão. Ou seja, loja física como único e exclusivo canal de venda. De acordo com matéria do UOL Economia, julho 2020, estima-se que de cada 10 empresas brasileiras que fecharam 4 tiveram suas atividades encerradas em decorrência da pandemia. Ainda na mesma reportagem 40% das empresas entrevistadas atribuíram que a causa do fechamento de suas atividades deu-se pelo coronavírus. Na moda grandes redes não saíram ilesas. Apenas para citar alguns nomes: Nordstrom, JC Penney, Victoria Secrets e outras. Marcas que não aguentaram o forte golpe da pandemia o que deu início a uma leva de pedidos de falência. 


Algumas marcas mesmo sem pandemia já estavam com certo fôlego digital. Porém, nem todas as empresas tinham ações digitais coerentes e as fragilidades por desconhecimento em como operar no universo digital, podemos dizer que “esgaçou” a gestão dos negócios de moda.  Mas o que está por trás dessa dinâmica cruel que fez com esse “alinhavado” empresarial rompesse de forma tão rápida? 


Bom, uma das causas está no começo de um negócio de moda sem conhecimento algum de moda. Em outras palavras, empreendedores começam uma marca de moda sem de fato conhecer o mercado em si. Não me restrinjo apenas conhecer tendências e pelo simples fato de gostar de moda, pois, a estruturação de um negócio de moda, ou não, vem do conhecimento, planejamento e gestão. O lado criativo é importante sim, porém, não sustenta uma marca. 


Outras causas desses desgastes consistem na perspectiva do engessamento dos processos empresariais, centralização das decisões, não envolvimento dos colaboradores, distanciamento entre conceito e propósito de marca e pasmem não saber para quem de fato vender. Não só isso abriu a costura dos negócios de moda, mas, diante a pandemia expôs a fraca modelagem pela qual os negócios de moda são estruturados. A moda trabalha com estruturas, proporções, medidas, caimentos e uma série de técnicas que permitem a moda ser reconhecida pelo glamour que a ostenta. Porém, por que esse mesmo conjunto de técnicas não é aplicado a gestão de um negócio de moda de fato?  


Por exemplo, qual a proporcionalidade do meu recurso eu aplico em conhecimento? Qual proporção do meu tempo eu dedico a estudar o mercado? Que série de técnicas em gestão preciso desenvolver para gerir meu negócio? Que estrutura é necessária para a minha marca funcionar de forma sustentável? Esses questionamentos devem ser mantras nas empresas e praticados pelos gestores de marcas. Segundo Ale Birman, da Arezzo, é preciso trabalhar o 3 R (Ritual, Ritmo e Rotina), ou seja, é a construção diária de hábitos que lhe permitam desenvolver sua capacidade de crescimento pessoal e profissional. 

 

Além disso, como se não bastasse o consumidor/cliente é simplesmente ignorado pelas marcas por não terem voz no sentido de serem ouvidos que dores realmente precisam ser sanadas. Você já parou para pensar o motivo pelo qual uma marca te interessa e outra não?. Moda vai além da roupa. É um tecido construído sob a base de conceito de marca, branding, propósito, missão e valores, comunicação e de pessoas não só as que compõem as marcas, mas, principalmente ao foco da marca: O CLIENTE. Costumo mencionar em algumas conversas com empresários ou em palestras a seguinte analogia: Ao construir sua marca você a direciona a partir da ótica comercial ou da arte? 


No meu artigo “Necessidade ou consumo?” mencionei que a percepção do consumo é uma questão individual. A moda pode e deve fazer o seu papel de conscientizar marcas e consumidores sobre esse timing de novos lançamentos a qualquer custo, a cultura da novidade e claro como lidar com o consumo.  A pandemia acelerou a necessidade da mudança não só pelo fato da aproximação e humanização dos processos no contexto da digitalização, mas, colocou em xeque a capacidade econômica de consumo das pessoas ao questionar a lógica preciso ter uma nova “brusinha”?


A expressão menos é mais pelo que observei ganhou força ao possibilitar para as pessoas o questionamento sobre o que é de fato valor. Também é notável o crescimento do consumo de segunda mão (brechós), guarda-roupa compartilhado, modelos de negócios de empréstimos e aluguel de roupa, a customização, o resgate da costura e outras formas de encarar a moda. Pois bem, estamos sim vivendo uma era diferente capaz de construir e reconstruir não só a moda, mas, como lidarmos com o consumo consciente. Sim, passamos pelo pânico, ainda estamos vivendo a crise, mas, temos que ter razoabilidade para enxergar que tudo passa e se reordena.

 

Devido a efemeridade da moda muito em breve veremos análises e revisitações sobre esse ano traduzido em livros, exposições, dissertações, teses e claro o que representou a pandemia em desfiles, peças de vestuário, modelagens e não menos importante na forma de se consumir moda, além é claro, como indústria e varejo de moda se moldaram a esse momento. Sendo assim a pergunta que todos devem estar se fazendo: Qual será a próxima tendência daqui para frente? Isso o tempo e a moda nos dirão.   




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