Moda sem gênero

(Matéria)

A melhor forma de entender a moda genderless (sem gênero) é analisando os fragmentos que formam o seu todo.

Joanna Burigo, especialista em gênero colunista da Carta Capital explicou que a moda genderless representa o resultado de um debate popular das questões de gênero. Para Joanna, hoje temos um pouco mais de fluidez e liquidez na nossa forma de pensar e assim vemos o mundo com menos regras nesse sentido, com toda reflexão que temos sobre o assunto diariamente com estudos e grupos ativistas. Assim, estamos mais abertos para a novidade. Podemos olhar para a afirmação acima e comparar com a teoria do sociólogo Zygmunt Bauman que fala sobre a sociedade líquida, que é pouco apegada no seu passado e mais focada no novo.

Uma sociedade que muda a todo momento e que é aberta para coisas novas, que é o caso do mundo em que vivemos hoje, se renovando a todo momento. Mas há algumas décadas atrás a sociedade era sim considerada sólida onde via um futuro em que instituições fortes como o Estado e a família seriam os pilares e com isso era sim possível ver um futuro que essas caixinhas e moldes que estão sendo quebrados fariam sentido.

Todas essas ‘’regras e padrões’’ que estão presentes em nossas vidas através do design tem uma história antiga com propósitos desconhecidos por nós mas estudando eles podemos entender tudo melhor.

No início as roupas eram usadas para suprir necessidades, como aquecer os homens do frio, sem muita preocupação com a estética. Mas com surgimento de artesãos na Idade Média,as roupas começaram a divergir na aparência, com a utilização de pedrarias, jóias, couro, algodão e lã. E no fim desse período o conceito de moda surgiu, com tipos variados de tecidos e acessórios que dividiam classes sociais e gêneros.

Em 1792 o tecido do jeans foi inventado na França e mais tarde, em 1853, Oscar Levi Strauss o popularizou na América e com ele a calça jeans surgiu -peça que também é considerada por muitos como sem gênero. Coco Chanel no século XX também é um grande nome da quebra da barreira genderless, foi a primeira mulher a se vestir e criar roupas femininas como calças e blazers. Atrizes mais famosas da época em Hollywood como Marlene Dietrich, Katherine Hepburn e Greta Garbo também apareceram em público vestindo calças. Na década de 60 a moda unissex surgiu e as mulheres começaram a aderir cabelos mais curtos. E assim , Yves Saint Laurent criou o smoking feminino. Essas mudanças trouxeram a ‘’moda masculina’’ para dentros dos closets das mulheres.

Louis Vuitton, Burberry, Givenchy e outras marcas influentes do mundo da moda, entram cada vez mais fundo no movimento sem gênero, surpreendendo e encorajando todos a participar também. Em 2016, a Louis Vuitton apresentou a sua campanha de verão com Jaden Smith de saia. E ele mesmo ja falou varias vezes como acredita que as roupas não tem gênero e como se sente confortável de saia e vestido. O estilo andrógino também construiu a fama de marcas como Comme des Garçons e Rick Owens.

Com toda essa mudança, as chances de você encontrar um homem andando de vestido e se sentindo extremamente confortável e feliz agora aumentaram. Mas muitos olham torto se sentindo tão confusos quanto quem observava o David Bowie blending the genders (misturando os gêneros).

‘’O mundo está mudando, mas de uma forma excitante.’’- diz Christopher Bailey, designer da marca Burberry para revista Vogue.

Definição de ‘’Individualidade’’ de acordo com o dicionário: ‘’Qualidade, caráter do que é individual, do que existe como indivíduo ‘’.

Definição de ‘’Gênero’’ de acordo com o dicionário:‘’Conjunto de seres ou objetos que possuem a mesma origem ou que se acham ligados pela similitude de uma ou mais peculiaridades. ‘’.

O gênero foi criado pela sociedade com o intuito de dividir as pessoas em grupos classificados a partir de suas características biológicas semelhantes ou distintas. Mas, essa divisão de gêneros aos poucos foi vista como algo que divergia do que, ou de quem, era superior ou não. Impondo padrões. Na sociologia o conceito de gênero se refere a construção social do sexo biológico. Ou seja, para a sociologia ninguém nasce do gênero masculino ou feminino, as pessoas se tornam ao longo da vida e acordo com o com o ambiente que estão inseridos. E podemos ver isso com o simples fato de que em diferentes lugares do mundo pessoas do gênero masculino ou feminino se comportam de maneiras diferentes.

As peças de roupas, por exemplo, na vida de muitos é vista como determinante de gênero, número na conta bancária e determinante de orientação sexual. Assim, quando alguém ‘’inverte’’ tudo, a confusão se instaura.

Nomes como Coco Chanel, David Bowie e Alexandre Herchcovitch quebraram barreiras -ou quebram ainda, que é o caso do Herchcovitch- do mundo da moda deixando as roupas andróginas começarem a serem vistas como algo cool e cabível a todos. E marcas como Vogue Magazine já reconhece o movimento.

Esse assunto está sendo tão explorado no mundo todo que no Japão surgiu um movimento chamado Genderless Kei (‘’Kei’’ significa ‘’ estilo’’), onde a escolha fashion vem antes do gênero da pessoa.

‘’Fashion reflects the times as much as the headline in a newspaper’’- Anna Wintour editora-chefe da Vogue Magazine Norte Americana. A moda reflete o tempo da mesma forma que o título em um jornal, afirma a jornalista. Se reflete mesmo, o mundo está realmente aberto para esse movimento da mesma forma que o mundo fashion está?

Não é apenas sobre homem poder usar saia. É sobre não ter mais regras, não ter limites para a forma de se expressar. Com tudo que está acontecendo no mundo podemos observar de fato que o que Bauman fala sobre a sociedade estar sempre mudando podemos facilmente perceber que é verdade, e que está indo que qualquer um que parar e observar pode enxergar, que a liberdade de se expressar e viver confortável em sua própria pele é o que vale. E que até que todos possam seguir suas vidas sem empecilhos e sem preconceito a sociedade continuará a mudar.

Essa nova geração busca cada vez mais novas formas de se expressar e a moda é uma forma incrível para isso. E ela acredita que qualquer peça pode se encaixar tanto no vestuário masculino quanto no feminino. Cabe no armário de todos e combina com todos.


9 visualizações