O GRITO DA SEDA

(Ensaio)

A relação moda e fetiche há tempos vem doutrinando nossos hábitos de consumo. Para Benjamin essa relação se encontra em uma vertente materialista, ou como ele próprio aborda, de mercadoria. O fetichismo da mercadoria então “se constitui no processo de construção abstrato, e se manifesta do valor da troca” (ERCKENBRECHT, 1976, p. 80).

Em outras palavras, ele se encontra dentro de uma perspectiva de acepção social e de diferenciação e luta de classes. Basicamente, por essa lógica, relação fetichista do ser humano com a roupa se dá pelo desejo de ser o que não é, ou de ter o que não de tem. Clérambault não apresenta a mesma lógica. Alienista, apaixonado e estudioso da relação tátil e psíquica do homem com o tecido, tem como seu principal campo de estudo Marrocos, e uma coletânea de anotações dos seus anos como chefe do setor de psiquiatria da polícia de Paris.


Irrelevante? Importantíssimo! Dos anos que passou como chefe de psiquiatria Clérambault teve a oportunidade de estudar pacientes que foram muito importantes para sua teoria fetichista: mulheres de relativa classe social as quais foram detidas por cometer pequenos furtos de tecidos (destacando-se a seda) para que com eles “desfrutassem” de seu toque. Vale observar que em nenhum momento o alienista fala de moda (ou de sistema). Quase todos os seus registros (que estão presentes no livro Grito da Seda, de Danielle Arnoux) são sobre essa relação quase, e em muitas vezes, como ele mesmo fala, carnal com tecido. Para ele o fetiche existe no ato de “possuir a roupa” (ou o tecido) de forma a entender como ela cai sob o corpo, e como ela toca o corpo.

Longe de uma perspectiva social e coletiva, sua teoria distancia-se de Benjamin e parte para uma análise muito mais psíquica e desenvolve essa questão fetiche/tecido por meio da lógica da erotomania (exageração, às vezes mórbida, dos sentimentos amorosos e do fascínio por contatos sexuais). Por mais estranha que pareça sua lógica, ela explica a atração incomum que muitas vezes temos por roupas de determinado tecido. Dessa forma, podemos entender esse entrelaçamento desejo/moda por um viés menos de diferenciação, e muito mais de introspecção.


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