O marketing de moda e a busca demasiada por lucros



A internet e as redes sociais passaram a ser ferramentas indispensáveis no nosso 

cotidiano, em tarefas e inclusive, profissões. A Geração Z já nasceu na ascensão da 

internet, o que contribuiu para a inserção natural dessa tecnologia em suas vidas. 

Assim como o comportamento do consumidor, a moda evolui junto à tecnologia, 

desse modo, o marketing de moda sofreu e ainda vem sofrendo modificações para 

se adaptar ao novo cenário e reações dos consumidores de moda. 



Essas modificações na moda são naturais, a moda deve olhar para as pessoas e 

priorizar o comportamento de seu consumidor, de acordo com o fundador da 

Box1824, Rony Rodrigues, a inovação (de uma marca) nunca existirá se estiver 

desalinhada com os ideais de uma época. Portanto, é fundamental considerar os 

hábitos e interesses de seu cliente. 



A internet causa impactos diretos na indústria da moda, podendo alterar toda uma 

cadeia de produção e divulgação de produtos, de acordo com Marcos Cobra, um 

dos maiores gurus brasileiro na área do marketing. No Brasil mais de 80% dos 

internautas participam de alguma mídia social, ou seja, é mais viável e fácil falar 

com o consumidor pela internet do que pelos meios de comunicação tradicionais, 

como a mídia impressa/eletrônica. 


Um exemplo claro de como a tecnologia afeta o jeito como as marcas se 

comunicam com os clientes, é o atual cenário mundial, no qual uma pandemia 

mundial trouxe uma nova realidade para nossas vidas. Em agosto a Copenhagen 

Fashion Week, um evento internacional de moda vai contar com um novo método 

para seguir seu calendário, adotando um formato híbrido com desfiles presenciais, 

complementados com uma programação online inédita, assim como o Paris Fashion 

Week que irá adotar esse estilo pela primeira vez esse ano. 


Um exemplo mais próximo, é a modelo virtual, Mara, utilizada pela marca Amaro em 

campanhas de marketing para preencher a suspensão dos shootings para a 

apresentação de novas coleções. A ideia, futuramente, é que a modelo atue como 

uma interface de inteligência artificial da marca. 


Esse papo todo é muito instigante e de fato, inovador, graças às redes sociais as 

marcas têm estado cada vez mais próximas de seus consumidores, fazendo parte 

de grandes pautas e discussões. Mas até onde é válido utilizar de todas essas 

ferramentas, apenas para girar uma cadeia econômica que parece não ter fim? Até 

onde as marcas querem relacionamento com o cliente, e não lucrar em cima de 

pautas importantes? 


Questionar as ações de determinadas marcas e ter um pé atrás com certas atitudes, 

não é errado, o errado é ficar calado e se conformar com algumas atitudes que 

vemos em nosso cotidiano. Felizmente, somos parte de uma geração com mais 

informações, maior senso crítico, orientados cada vez mais pelos nossos valores e 

consciência. 


Há algumas semanas, a Vogue Brasil cedeu seu Instagram para dar voz a 

influenciadores negros, em decorrência ao #blacklivesmatter, movimento 

co-fundado por três organizadoras da comunidade negra, Alice Garza, Opal Tometi 

e Patrisse Cullors. 


A ação da Vogue Brasil foi genuína ou apenas conveniência? A pauta — racismo — 

nunca foi tratada da forma que merecia pela marca, inclusive vale lembrar de um 

acontecimento lamentável no começo do ano passado, quando a diretora de estilo, 

agora a ex diretora, da revista comemorou seus 50 anos com o tema “Brasil 

Colonial”, com um espaço montado para os convidados tirarem foto ao lado de 

mulheres negras vestidas de roupas e turbantes brancos, cena que remeteu a 

escravidão. 


É de se contestar uma marca que agora se diz anti-racista, se em seus pilares e 

ações que construíram a imagem da Vogue durante tantos anos, não dizem o 

mesmo. 


Esse é apenas um dos grandes golpes de marketing que a indústria da moda utiliza 

em suas campanhas, o termo dado a casos como esse é o fashion washing, no 

qual veículos de comunicação e marcas dizem ter princípios genuínos, mas eles 

não são, de fato, seguidos. 


Grandes polêmicas como essa não envolvem somente marcas de moda, mas outras 

como o Itaú, acusado inúmeras vezes de homofobia, que neste mês de Junho — 

mês do orgulho LGBTQIA+ — trocou a foto de perfil em apoio à comunidade. 

É necessário notar que, muitas a maioria das vezes, as marcas agem por pura 

conveniência, para sair com uma boa imagem em X situação, por esse motivo é que 

devemos ficar de olho na conduta das mesmas futuramente. 


Para Philip Kotler, conhecido como o guru do Marketing, “O marketing é o processo 

social e gerencial através do qual indivíduos e grupos obtêm aquilo de que 

necessitam e desejam por meio da criação e troca de produtos e valores”. Vamos dar 

ênfase quando ele fala sobre troca de valores, afinal, é impossível não perceber o 

grande impacto que a Geração Z (pessoas que nasceram entre 1992 e 2010) têm 

na indústria produtiva. 


Isso tem uma relação direta com o motivo pelo qual as empresas vêm adotando um 

novo estilo na comunicação com os consumidores, a Geração Z é composta por 

pessoas que acabaram de entrar no mercado de trabalho e que têm grande poder 

de compra atualmente. 


Com isso essa geração também exige novos posicionamentos, afinal de contas, 

esse é um grupo social que cresceu com a ascensão de grandes pautas sociais, 

como o feminismo, racismo, homofobia, dentre muitos outros. 

Um dos grandes nomes dessa geração é a ativista e defensora do controle de 

armas nos Estados Unidos, Emma Gonzalez, que teve uma matéria especial em 

2018 na revista estadunidense Teen Vogue. Dentre outros nomes influentes, como 

Zendaya, Malala e Greta Thunberg, que exemplificam perfeitamente como é a 

Geração Z. 


Ou seja, a não adaptação às mudanças geracionais causam repercussões 

negativas na gestão das empresas, não à toa que a cultura do cancelamento é tão 

presente nas mídias sociais, o Twitter está aí como exemplo das discussões que 

essa geração levanta quase que diariamente. 


O laboratório internacional de pesquisas Future Concept Lab (FCL) fala sobre uma 

nova era de consumo autoral, na qual as pessoas são autores de suas próprias 

escolhas de consumo. Não é mais a indústria da moda que irá ditar 

comportamentos e decisões na hora das compras do cliente, mas exatamente o 

contrário. 


Concluindo, ficar de olho e questionar é característica de uma geração, que não 

pode perder essa essência, só assim é possível voltar para uma moda que contesta, 

conta histórias, expressa e é consciente, e não a que busca lucros de forma 

irresponsável. 


É nosso papel ficar de olho, mas é papel, exclusivamente das empresas, serem 

coerentes e, de fato, se preocuparem com o consumidor e seus ideais, porque se a 

intenção delas não forem genuínas, a saúde de todo o sistema de uma marca irá 

enfraquecer.




27 visualizações