Pertencimento: Por que nos vestimos como nós nos vestimos??  

(Ensaio)

Você acorda, se levanta, e depois de sua rotina matinal, despe o seu pijama e se veste (pelos menos é o que entendemos por nos vestir para o dia que está por vir). Mas você já parou para pensar o por que de nos vestimos como nós nos vestimos? Pode parecer banal, corriqueiro e extremamente habitual, mas toda essa cerimônia matutina que fez você usar essa roupa que você está usando nesse exato momento, tem um porquê. Mas afinal, por que as pessoas usam roupas?

Entre as milhares de respostas óbvias que poderiam vir em mente (como proteção, pudor, expressão, adaptações climáticas, etc e tal), opto por apresentar uma reflexão subjetiva presente no prefácio do livro “Conquistas humanas – Vestuário” escrito por Ruth Guimarães:


“Parece tão óbvia a razão de nos vestirmos, tanto estamos habituados a andar envolvidos em panos! E talvez até não se saiba dar mesmo assim de pronto, a razão última do uso do vestuário. Ou talvez não se possa dar uma resposta só, pois a pergunta admite várias”, mas vamos então apelar para explicarmos o ato de nos vestirmos por meio da tradição cotidiana do mesmo. “Mas que tradição será essa que muda a todos instantes? Será por tradição que as saias hoje estão nos joelhos, amanhã nas canelas, depois de amanhã nas coxas, nas quadras de tênis tem dois palmos, nos bailes descem aos pés? Tradição será vestir calças de boca larga neste ano, de boca estreita ano que vem? Tradição, usar jaquetão, casaca, “slacks”, mas variando sempre nas cores, no modelo, no tecido, na confecção, nos enfeites? Tradição a variedade, se a tradição é conservar? Os camponeses das velhas civilizações, guardiões da tradição, não variam jamais seus modelos”.

O fenômeno que Ruth apresenta como tradição corriqueira e fugaz, é nada mais nada menos do que a fenomenologia do sistema de moda, sendo posta em prática. E a menos que alguém aqui ande pelado, todos nós somos dependentes, querendo ou não, desse tão fadado sistema. “Toda uma filosofia de vida, toda uma escolha, todo um pensamento, uma direção, um modo de viver, transparecem através do vestuário. Isto é inegável. Mostra-me o teu guarda-roupa… e eu te direi quem és” (RUTH), e direi ainda mais, qual tempo-espaço você habita. A roupa acompanha a evolução social do ser humano. Falar que a forma como nos vestimos demonstra quem nós somos, isso já é de senso comum. Cabe aqui falar que as mudanças na estrutura do vestuário que acompanham as mudanças socioeconômicas, estas por conseguinte, moldam a forma como nós enrolamos esse emaranhado de panos repletos de simbologias e significados em volta do que chamamos de corpo.

Se hoje conhecemos e entendemos (saliento aqui que erroneamente) a moda como um elemento contemporâneo, ou no geral, esteriotipado de forma efêmera, cabe a um meio social e uma sociedade que vive de forma efêmera. Simples assim. Um é fruto do outro. E ambos agem de maneira a moldarem e a serem moldados, por meio dessa simbiose de modismos sociais.

Em outras palavras: o por quê de nos vestimos como nós nos vestimos, tem correlação intrínseca com o fato de pertencemos a um meio que está ligado a um recorte de dimensão socio-comportamental. Para pôr esse pensamento em prova, bastaria colocar uma pessoa vestida de brocado, com uma saia larga de pregas generosas, corpete justo e um rufo em volta do pescoço (à moda renascentista), em plena praça da Sé em uma segunda-feira de manhã. As reações? Provavelmente seriam de estranhamento, e o porque de tal sensação nada ordinária, cabe ao simples fato de não vivermos mais em uma sociedade quinhentista.


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