POR QUE A MODA É EFÊMERA?

(Ensaio)

Gilles Lipovetsky, filósofo francês, teórico da Hipermodernidade, apresenta as principais teorias que circundam a cultura material e a moda, como um destino das sociedades modernas.

Ambas pensadas como fenomenologia onipresente na atualidade, exprimem para Lipovetsky, uma forte vinculação de sedimentação social. Em outras palavras, sua abordagem de significações sociais é estruturada segundo a estratificação dos valores pós industriais e em uma relação sistêmica individuo > sociedade. Com base em uma concepção histórica de fundo idealista (hegeliano), apresenta de forma veemente em suas obras, uma dicotomia entre história social e história cultural. Ou seja, para ele quaisquer fenômenos que se relacionem com a cultura material, e logo a moda, ocorrem pelo advento da industrialização e em um paralelo onde se pode por meio desses fenômenos, se estudar tanto o indivíduo quanto a sociedade em que ele está inserido.


Gilles ainda defende que a cultura material que data determinado período da história parte do pressuposto que há uma dominação de arquétipos sociais, e por conseguinte, de consumos conspícuos. As "condições sociais de emergência da moda" são, então, a noção esboçada para evitar as interpretações mecanicistas e deterministas em análise social mas ao preço de "separar" definitivamente relações sociais e produção de sentido (neste caso, especificamente, de valores culturais), (ALMEIDA, 1995).

Em outras palavras, a efemeridade como fruto de uma sociedade moderna é nada mais nada menos do que o terreno fértil em que se constrói o sistema de moda dinâmico e fugaz que conhecemos hoje, aonde a moda surge como um importante marcador das camadas sociais.

Tendo em mente tais bases, é valido pensar que a tese mais famosa de Lipovetiscky "o império do Eferêmero", aonde o autor constrói uma vasta rede de motivos pelos quais a moda é efêmera, é a tese a qual sustenta os reais motivos pelos quais a moda se correlaciona com a efemeridade. Entretanto ao analisá-lo de forma a não se estudar suas outras teorias constrói um pensamento muito vago desse relacionamento.

A princípio esse relacionamento se dá por fatores industriais. Desde a revolução industrial, a humanidade vem vivenciando cada vez mais um acelerar do viver como um todo. As produções estão cada vez mais rápidas, as locomoções entre países se dão em cada vez menos tempo, as descobertas acontecem de forma cada vez mais depressa. Teria então como algo como a moda não acompanhar esse acelerar da sociedade moderna como um todo?

Não, não teria. Em sua teoria de Hipermodernidade Gilles afirma que "na era do vazio", período que se estabelece desde a pós revolução industrial até depois da consolidação dos fast fashions, fase o qual que ele chama de modernidade, a efemeridade é latente porque se tem uma exacerbação da lógica do individual sob a lógica do coletivo. Dessa forma historicamente corresponde ao momento em que há um enaltecimento das culturas de massa para o proletariado, de forma ao “burguês” lucrar por vendas efêmeras e em grande escala, visando a quantidade em detrimento da qualidade. Em termos ainda mais esclarecedores, é o momento no qual cuja moeda da vez é a efemeridade por consequência do lucro. Nada mais nada menos do que os precedentes da lógica capitalista.

Já a hipermodernidade remete ao declínio do capitalismo (período em que estamos) aonde a precariedade da existência humana decorre da condição permanente de urgência e imediatismo que até então predominava nas relações sociais. É nesse momento e com uma lógica muito distante da apresentada em o Império do Efêmero, que Lipovetscky demonstra sem citar a própria moda, que esta é fruto dos modismos de uma sociedade.

Em outros termos, pode-se dizer então que a moda representa o Zeitgeist de determinada época. Correlacionada a teoria de reconhecimento, a filosofia do Zeitgeist (ou espírito do tempo), é um dos exponentes das obras de Hegel. Para o filosofo, a arte reflete a cultura da época em que foi criada. Assim sendo, tanto a arte como a cultura e a moda, são conceitos inseparáveis, uma vez que são produtos de sua época. Se antes as apresentações quanto as novas coleções duravam uma tarde inteira, os desfiles até poucos anos, perduravam demorados 8 minutos. Até porque se até então nossa a sociedade se construía sob o signo da efemeridade, como poderia a moda não também não ser?


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