Por que você deveria começar a consumir roupas de segunda mão?


O jeito como enxergamos a roupa mudou drasticamente a partir da segunda metade do século XVIII na Revolução Industrial. Com o advento das máquinas, a produção que até então era feita de forma artesanal e em pequena escala, começou a ganhar outra forma. O sistema que temos hoje deriva dessas modificações, uma produção mais rápida, fácil e barata.


Isso impactou não só a nossa forma de produzir, mas também a forma como consumimos. Segundo a socióloga Diana Crane no livro ‘A moda e seu papel social’, até a Revolução Industrial as roupas estavam entre os itens mais valiosos de uma pessoa. Elas eram feitas para durar e servir de herança, perdurando gerações.


Por tanto, usar roupas de segunda mão era algo natural e sem esforço. Crane relata também

que os tecidos eram tão caros e preciosos que frequentemente serviam como moeda de troca,

substituindo o ouro como pagamento e quando os recursos se tornavam escassos as pessoas

penhoravam suas roupas.


Com o passar dos séculos e todas as modificações sistêmicas da nossa sociedade, esse cenário

mudou e gerou impactos que precisam ser debatidos. Hoje a indústria da moda está dentre as

mais poluentes do planeta e os dados apresentados em uma matéria pela Organização das

Nações Unidas Meio Ambiente são alarmantes: a moda é o segundo setor que mais consome água, produz cerca de 20% das águas residuais e libera 500 mil toneladas de microfibras sintéticas nos oceanos por ano.  O setor responde por algo entre 8 e 10% das emissões de gases-estufa, mais que o transporte marítimo e a aviação juntos.


Nos últimos 15 anos o consumo de peças cresceu 60% e cada item é mantido no

armário pela metade do tempo que antes. A indústria da moda está avaliada em cerca

de US$ 2,4 trilhões e emprega mais de 75 milhões de pessoas no mundo. O dado mais

curioso é que ela desperdiça aproximadamente 21% desse valor (US$ 500 bilhões) ao

ano em descarte de roupas que vão para aterros e lixões.


A roupa passou de um bem de consumo durável para um bem de consumo

descartável. Segundo dados do relatório anual de revenda da TherdUp, 1 a cada 2 pessoas jogam suas peças indesejadas diretamente no lixo e menos de 1% do material usado para

produzir as roupas são reciclados pela indústria, dados do relatório “Uma Nova

Economia Têxtil”, apresentado em 2017 pela fundação Ellen MacArthur.


É aqui que o consumo de segunda mão entra como alternativa para aumentar a vida

útil das roupas e diminuir o impacto causado pelas mesmas. No relatório da TherdUp

eles mostram dados bastante relevantes sobre essa questão. Se nesse ano todos nós

comprássemos apenas um item de segunda mão no lugar de um item novo, haveria

potencial de redução de até 2,6 milhões de toneladas na emissão de dióxido de carbono e menos 18,7 mil caminhões de lixo cheios de resíduos que foram empregados na produção dessas peças.


Muitas pessoas ainda oferecem resistência a esse tipo de consumo, por mais que ele

esteja em crescimento. Estima-se que até 2029 o mercado de segunda mão cresça

quase duas vezes o tamanho do mercado do fast fashion. O relatório da TherdUp

confirma essa questão trazendo os seguintes dados: 1 a cada 2 compradores evita ser

visto mais de uma vez com a mesma roupa e 70% afirmam que compram roupas que

serão descartadas. É interessante analisarmos com mais atenção o que desperta essa

relação.


O desenrolar do sistema têxtil pós Revolução Industrial é ambíguo, pois ao mesmo

tempo em que ele foi um ponto de partida para a democratização do vestuário, ele

também foi a base para um sistema que desvalorizou o mesmo. Além dessa

desvalorização, reforçada ainda mais pelo mercado do fast fashion, o próprio sistema

da moda, do alto da sua efemeridade, alimenta o desejo e a “necessidade” frequente

por peças novas numa velocidade cada vez mais rápida.


Como equilibrar isso e ainda gerar menos impacto no meio ambiente? É urgente a

revisão da indústria de ponta a ponta na cadeia produtiva da moda, assim como é

urgente que nós estejamos atentos ao impacto como consumidores. Não é sobre

parar de consumir peças novas ou passar a replicar esse mesmo consumo excessivo

nos itens de segunda mão. É sobre rever os conceitos e consumir com mais

consciência.


Consumir de segunda mão além de ajudar a diminuir o impacto ambiental, como

vários dados mostram ao longo desse texto, é uma ótima experiência para

construção do nosso estilo pessoal e uma ferramenta para estimular a criatividade.

Um exercício para olharmos as roupas por outro ângulo, nos encantarmos com as

histórias e memórias que elas carregam e começarmos a enxergá-las como o que elas

de fato são, itens duradouros (lembre-se, algumas peças de roupa podem demorar de

dezenas a centenas de anos para se decompor!).


Se vestir não é só sobre estar dentro da última tendência ou ter aquela peça com

etiqueta famosa. É sobre imprimir sua “digital”, é sobre falar sem precisar usar

palavras. Afinal, a gente não se veste só para cobrir o corpo e uma roupa nunca é só

uma roupa.


* Gostou desse texto? Uma dica extra é criar novas combinações para as peças que

você já tem no seu guarda-roupa. Além de exercitar o autopercepção do seu estilo,

você colabora na redução do consumo desnecessário e pode se surpreender com a

quantidade de looks que uma peça pode render.




24 visualizações