Precisamos falar sobre a SHEIN?


Precisamos falar sobre as estruturas de poder e como o sistema de moda opera. E isso inclui falar sobre grandes marcas de moda, como a SHEIN e várias outras. A varejista chinesa em questão, que vende de forma online vestuário feminimo, masculino, infantil e itens de beleza, foi “criada em outubro de 2008, e desde então vive no lema em que ‘Todos podem aproveitar da beleza da moda’. Os nossos negócios cobrem mais de 220 países e regiões no mundo inteiro. A SHEIN é o melhor lugar para comprar de maneira barata”, diz o próprio site.


Procurando informações sobre onde as roupas são produzidas, podemos achar o montante de zero coisas. São dados vagos, que dizem ter “armazéns estrategicamente localizados”. É uma marca totalmente opaca: nem mesmo temos certeza sobre quem é seu fundador, ou de qual conglomerado ela faz parte. Os próprios trabalhadores são afastados dos processos daquilo que eles mesmos produzem. (O Capital, Volume 1, página 146, CORRE LÁ).


As roupas da marca não ultrapassam muito os R$100,00. Existem vestidos, por exemplo, custando R$50,00. No próprio site eles listam todas as etapas de sua produção: “design de produto, fabricação, garantia de qualidade, fotografia, logística e transporte e serviço ao cliente”. Com tantos processos, que envolvem pessoas e recursos naturais, é possível remunerar dignamente todos os envolvidos nessa cadeia?


Bem, supomos (com muita suposição) que seja possível produzir uma peça do zero com RS 50,00 reais remunerando dignamente todos os envolvidos na cadeia. A gente precisa produzir mais roupa? Já produzimos cerca de 150 bilhões de peças de roupa ao ano (Massachusetts Institute of Technology, 2015). A gente dá conta de usar tudo isso? Não. Um caminhão de lixo têxtil é descartado no mundo por segundo, conforme a Ellen MacArthur Foundation.


Ver tantas peças de roupa com preços tão baixos pode nos levar a um questionamento: “Será que a SHEIN usa trabalho análogo à escravidão?”. Não sei dizer. “Todas as marcas de fast-fashion usam trabalho análogo a escravidão?”. É impossível afirmar. Mas podemos conversar sobre as condições de trabalho convencionais da moda, das práticas de compra nocivas de grandes varejistas e da forma como tudo isso anda em sinergia com o capitalismo, colonialismo e imperialismo. Bora?


Sabiam que dez países asiáticos (Bangladesh, Camboja, China, Índia, Indonésia, Mianmar, Paquistão, Filipinas, Sri Lanka e Vietnã) somam 75% da força de trabalho da rede produtiva da moda no mundo? (ONU e OIT). São 65 milhões de pessoas, em maioria (80%) mulheres, trabalhando dia após dia para produzirem um tantão de roupas que pasmem… a gente nem precisa. E muito com preços bem baixos: Em 2016, Bangladesh era o segundo fornecedor mais barato de roupas para a União Europeia entre dez países competidores.

Isso tudo resultou em tragédias como o Rana Plaza, por exemplo, que desabou em Daka (capital de Bangladesh) em 2013 por péssimas condições e levou consigo a vida de 1000 pessoas. As condições de trabalho, na indústria da moda, ainda são marcadas por precarização, informalidade e salários baixos. Essas grandes marcas se instalam em países onde podem explorar mais e pagar menos, caçando livres mercados mais do que livres pessoas. Tudo isso segue a cartilha do capitalismo e da globalização perversa. (Sugestão de leitura: Por Uma Outra Globalização, de Milton Santos).


Na pandemia, essas mulheres trabalhadoras foram ainda mais afetadas. Grandes marcas quebraram seus contratos, deixaram seus trabalhadores indiretos à deriva e não pagaram pedidos prontos ou em andamento. Em Bangladesh, o rendimento médio mensal dos funcionários têxteis caiu quase pela metade entre abril e maio, de cerca de US$ 113 para apenas US$ 65 por mês, conforme relatório recente da International Labour Organization.

Tudo isso tem muito a ver com as práticas de compras das grandes varejistas mundiais. Elas são a forma que as marcas se relacionam com seus fornecedores e dizem respeito a prazos e condições de pagamento, entre outras coisas. Mas como bem visto em 2020, elas privilegiam quem já detém as riquezas: várias fast-fashion cancelaram pedidos prontos ou em andamento e muitas só querem estender os prazos de pagamento.


A classe trabalhadora, porém, não é passiva. Ela é viva. Um exemplo é a campanha #PayUp, que começou como uma petição online para pressionar as grandes marcas a pagarem seus trabalhadores em meio a pandemia, e se desdobrou no movimento Pay Up Fashion. Agora, sabem quais marcas estavam na lista: Não era a SHEIN, mas sim ZARA, Nike, Adidas, Balmain, Levis, várias outras, e a própria C&A, marca que teve a maior pontuação no Índice de Transparência da Moda Brasil 2020, o que mostra como nem sempre o discurso acompanha a prática.


“Mas a Shein é acessível”. De fato, os preços baixos possibilitam um acesso material de produtos para muitas pessoas, e também a abrangência de tamanhos para vários tipos de corpos. Mas será que isso significa mesmo “ser acessível”? O que é “ser acessível”? O fast-fashion democratizou a moda? Bem, se democracia tem a ver com poder escolher, será que temos realmente poder de escolha quando somos limitadas a comprar peças baratas porque as condições e acessos desiguais que temos nos obrigam?


Vamos tentar mudar a pergunta? Talvez para: por que existem pessoas impedidas a acessos materiais básicos? Por que a moda ainda continua excluindo tantos biótipos? Acredito que com essas perguntas podemos realmente falar em acesso e democracia. Não podemos nos contentar com um impositivo da indústria da moda, que no fundo, não está pensando em como incluir pessoas, mas sim em como lucrar mais. A resposta aqui se desdobraria em muitas e não vou entrar no mérito, mas resumo em: porque ainda existe capitalismo, desigualdade, acumulação, exploração, opressões de gênero, raça e classe. E num Brasil que um quarto da população vive com R$ 413 reais por mês, todos esses marcadores são impeditivos ou imperativos.


“Mas você está dizendo pra parar de comprar em fast-fashion e na SHEIN?”. Não. Inclusive já escrevi anteriormente sobre como simplesmente boicotar as fast-fashion dentro dos moldes do capitalismo global não resolve muita coisa. Tampouco é uma crítica para quem compra ou comprou na SHEIN ou em qualquer fast-fashion. Limitar e pensar que mudanças estruturais virão com consumo individual também nunca será a solução, pois os problemas são coletivos e sistêmicos. Não estou falando aqui de CPFs, mas sim de CPNJs — e daqueles bem milionários.

Não é só sobre a SHEIN. Falei sobre a SHEIN para na verdade falar sobre outra coisa: o sistema de moda atual é podre. Morto por dentro e por fora. É um sistema falido que explora pessoas e Natureza. Precisa de mudanças urgentes, mas as grandes marcas ainda estão atrasadas. Até fazem uma coleção aqui e uma carta aberta ali, mas não tem preocupação em mudarem seus processos de fato. Se tivessem, o cenário seria outro.


A forma como a indústria da moda opera é baseada em acumulação de riquezas, lucratividade e exploração. É um sistema destruidor. Pode parecer duro e cheio de amargura falar isso, mas é a realidade para a esmagadora maioria das pessoas que fazem nossas roupas. E não é só no fast-fashion, mas em todos os mercados (o de luxo não fica de fora). Precisamos mudar as formas de consumir tanto quanto as formas de produzir. Isso inclui mudar radicalmente a moda. Precisamos mudar o sistema socioeconômico em que vivemos. Precisamos SUPERAR o capitalismo e construir outras formas de viver, o bem viver. Pra ontem.

Agora, por fim, o convite não é pra “parar de comprar em fast-fashion”, mas muito mais para a gente se mobilizar e se organizar para mudar essa realidade. Problemas radicais requerem posturas radicais. A última pergunta é: quem vem junto nessa missão?


Por: Bárbara Poerner

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