Querida vogue

(Análise)

Eu olho para as minhas Vogues orgulhosamente organizadas por edição (das mais antigas para as mais recentes), e comecei a questionar: o que mudou?? Será que eu simplesmente não sou mais aquela menininha que sonhava em trabalhar na edição de uma revista como a Vogue cobrindo os principais desfiles de Paris e Ny (assim como milhares de outros leitores da bíblia da moda) ou será que suas páginas montadas e meticulosamente glamourizadas simplesmente caíram por terra? (Pelo menos para mim?).

Lembro de começar na faculdade de moda há três anos atrás e sonhando em conseguir um cargo de estagiária, copeira, o que fosse, dentro de uma edição. O importante é começar de baixo né?


Três anos depois o cargo nunca veio, e aquela menina que ficava deslumbrada com os editoriais de moda e os desfiles, simplesmente mudou. Ou pelo menos, enxergou um lado muito diferente daquele que vinha nas páginas de uma Vogue. A faculdade (e principalmente as leituras que fiz ,e ainda, faço durante curso) me mostraram um lado da moda pelo o qual me apaixonei: muito mas humano, real e principalmente, acessível, a mim e a todos.

Minha perspectiva do que é moda mudou, e com isso minha relação com as revistas também. Passei a enxergá-las como um retrato muito infiel da sociedade. Muito mais elitista e estereotipado.

Com a pandemia, veio a esperança: será que assim como a moda, elas vão se reinventar e adaptar-se ao novo normal? Algumas assim fizeram, destaque aqui para a Vogue Itália e a brasileira ELLE, que nem entrou 100% de volta ao cenário editorial brasileiro, e que estão dando um baile de humanismo e bom senso. Afinal moda é sobre gente. A Vogue Brasil? Decepção. Com Gisele na capa e um discurso de simplicidade, me questiono que simplicidade é essa que vem vestida de Prada e Chloé?


O prestígio até então inabalado das revistas e editoras de moda sucumbiram ao novo normal. E as que assim não fizerem serão devoradas por leitores vorazes os quais sabiamente entraram no mais novo modismo social: questionar absolutamente TUDO.

Desde sua estréia em 1770, com a britânica Lady’s Magazine, vale-se dizer que em uma sociedade completamente divergente da que vivemos, as revistas vem cobrindo mais do que apenas moda: mas sim um retrato vestível da sociedade (ou pelo menos assim deveria ser).


Em um tecido remendado e com uma trama incerta, o registro do que as pessoas usavam se tornou o que elas deveriam usar. As revistas passaram a ditar tendências, ao invés de analisá-las, e com isso veio aquela vaga noção de consumo que você precisa comprar aquela bolsa (pela qual você não pode nem pagar). Tá e é isso que é moda?


Em meio a essa confusão toda com a última edição da Vogue, fico extremamente feliz de dizer: não. Moda é muito mais do que isso. E olha, finalmente estamos questionando esse “isso”.


Ah e antes que você mude de site, ou areaste para o post de baixo, aqui quem vos fala é uma estudante de moda, que há 2 anos está tão acostumada a artigos científicos que quase nunca escreve em primeira pessoa. Mas em um momento como esse, humanizar minhas palavras foi minha maneira de dizer: precisamos humanizar a vida.


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