Roupagem Social

(Análise)

A moda sempre foi reflexo da sociedade. Em linhas mais explicativas, a palavra "moda" vem o latim modus, que significa modo, maneira. Tá, mas e daí? E daí que não está associada somente ao hábito de cobrir o corpo ou à maneira de nos vestirmos, mas sim a um copilado de modismos e ismos os quais refletem um conjunto de fatores sociais e políticos. E dessa vez esse reflexo não é nem um pouco diferente das presentes (ou como estamos vendo agora, inexistentes) relações sociais. Pelo menos como conhecíamos. Se antes as pessoas se vestiam para se inserirem no meio social, hoje as narrativas vestidas da vez, se perdem entre pijamas e camisetas podrinhas.


Afinal em um planeta que há mais ou menos 40 anos vive, praticamente, sem fronteiras, hoje, em um momento em que essas fronteiras se encontram fechadas de maneira quase que global e com quase (ou literalmente) metade do mundo em quarentena, o distanciamento social é mais do que a tendência da vez. É o que precisamos fazer, pelo bem geral! E assim como as grandes tendências mundiais, essa não poderia deixar de afetar a maneira como nos vestimos hoje.

Com grande parte da população em home office (incluindo toda a equipe do Trameiras), e um crescente desacelerar da sociedade como um todo, o que mais tem despontado por aí é o que conhecemos por "meio vestido". A roupas coorporativas se transformaram "em meias roupas", nada mais nada menos do que combinações de pijamas e camisas sociais, para reuniões onde só precisamos nos preocupar com o que irá aparecer na tela do Skype.

Nossas atuais narrativas vestidas são fruto das novas maneiras pelas quais nós estamos vivendo neste novo tecido social. E esse tecido vai muito mais além de que como nos vestidos, para como consumimos. Afinal, assim como nós, os nossos próprios hábitos de consumo estão entrando igualmente em quarentena, e nos fazendo repensar: para que eu vou comprar uma roupa hoje?

Em meio a esses questionamentos, as máscaras surgem como um ícone mundial que traz em si toda a simbologia de uma pandemia que tem assolado a economia global. Mas para quem está enfrentando esse clima de fim do mundo e pondo os pés nas ruas desertas do mundo afora, fica o questionamento: Máscaras valem mais do que o look da vez? É válido dizer que (não, não são um acessório) e são fundamentais APENAS para quem está com os sintomas (febre ou tosse). Afinal, segundo a OMS deve-se fazer o uso racional deste recurso para evitar desperdício.


Mas enquanto organizações se manifestam contra seu uso de forma indiscriminada, movimentações em redes sociais de grandes críticos da moda questionam se essa, como indústria criativa, faz mais do que inventar máscaras com logo das grandes marcas, de forma a apelar em prol de um movimento de caráter extremamente capitalista. Penso que não. A priori sim. Elas estão apelando fortemente para um sistema capitalista, que com essa crise, vemos que não funciona mais. Mas a moda é muito mais do que máscaras caras com logos que promovem distinção social.

Como indústria de grande poder monetário, tem sido uma das importantes doadoras de centenas e milhares de dólares na luta contra o COVID-19. Como fenomenologia, tem transmitido em nossas vestimentas contemporâneas nosso momento atual: preocupação, incerteza, e uma pitada de esperança, de que uma hora ou outra, vai ficar tudo bem.


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