Sociedade do Hiper Consumo

(Ensaio)

Já fora o tempo. Tempo em que o mundo se delongava em extensos períodos da história. Tempos em que os modos duravam séculos. Hoje, duram dias. Há quem diga, cliques. Mas ainda pode-se dizer que o tempo e sua passagem é imutável, mas a forma como o vemos e o vivemos, não. E se há mil anos os modos e as modas mudavam há cada milênio, hoje, as indumentárias contemporâneas do ser mudam a cada badalada do relógio. Relógio este no qual, há uma


constante fixação pela velocidade e pelo novo.


E se pensando diante das evoluções temporais, a moda propicia o que podemos compreender como uma fonte de conflito entre o a psiquê individual e o coletivo social. “De alguma forma temos um ideário para pensar que o que se veste é reflexo do que se pensa na medida do tempo”- D’Almeida. Dessa forma, pensar os conceitos por trás de um não sistema de (e da) moda, significa pensá-la sem a retirar do meio temporal e da vivência temporal em que ela está inserida.


"O desenho do tempo operacionalizado pela moda registra momentos, nuances, desejos, inquietações, entre a força simbólica das roupas, velando ou desvelando, corpos de membros das sociedades em suas exegeses imagéticas" (Tarcisio dÁlmeida)


Pensar a moda, é pensar o ser humano. A moda é então uma prática individual circunscrita ao coletivo em meio a uma temporalidade na qual o entrelaçamento vestimenta, corpo e sociedade, forma uma rede infinita de símbolos e poéticas, as quais tramam o que chamamos de mundo contemporâneo. Já dizia-nos Benjamin que as modas são um medicamento que deve compensar na escala coletiva os efeitos nefastos do esquecimento. Quanto mais efêmera é uma época, tanto mais ela se orienta na moda”. Nesse sentido, vestir o tempo significa vestir-se dentro de um espaço de tempo (ainda sim, seja ele efêmero ou não).

O vestir-se, reflete a história de quem veste, e mais do que isso, reflete o meio em que este vive. Ação inconsciente, diária e hodierna, a moda é um elemento moldante e que é moldado. Que muda e é mudado. Cíclico, por vezes sistêmico, e de todas as maneiras, muito mais do que um simples sistema. Erroneamente correlacionado apenas como um dos eixos capitalistas, a moda exprime, e veste o seu tempo, e o pensamento do "eu" e do "nós". A moda envolve questões muito mais amplas do que apenas tendências, estilos e estéticas. Como um traço inerente a sociedade, muito mais do que uma simples cultura de consumo, faz parte de um meio de produção, mas muito mais de símbolos do que de consumos. É reflexo de um inconsciente singular e plural.


E afinal? O que o nosso inconsciente grita hoje??


Nossa sociedade é sim ainda efêmera, veloz e extremamente mecânica. Mas hoje as roupas passaram a ser muito mais qualitativas (atrelando-as a narrativas das mesmas) do que quantitativas. A quantidade de roupas que você possui não representa mais nada sobre você. Vivemos hoje em um momento em que não só a estética da roupa importa. Mas de onde ela veio, do que ela é feita e para onde ela vai, formam a identidade da mesma.

Nesse tecido social em que vivemos e onde todos tramamos o entrelaçamento de nossas histórias, nada é por acaso.


O desacelerar da moda é fruto do gradativo desacelerar do mundo em que vivemos. O caminhar ainda é urgente e de extrema rapidez, mas caminha nesse processo transitório que nos faz repensar nosso papel como co-criadores dessa trama coletiva e mundial.

Nesse cenário em que vivemos hoje nosso corpo é político, seja o nosso posicionamento político ou não. E ao falar sobre corpo político, não falamos de vestir a camisa de um partido ou de outro. Mas de vestir nossas escolhas e nossos posicionamentos no mundo. É sobre expressar como nos relacionamos com o tempo e como ele nos muda. Há ainda um longo caminho a se percorrer para chegar no que chamamos de futuro. O hoje ainda é contemplado por algumas mudanças que só vem por convenção. Ainda sim, ainda que por meio de um caminhar lento e gradativo, o momento presente é de total mudança para algo o qual ainda não sabemos ainda.

O consumir está mudando, e dessa maneira o produzir também mudará. A sociedade está percebendo que regras não existem mais. Muito menos dentro da moda. Que o corpo é real e que moda é sobre as imperfeições da raça humana, e não feita de perfeições estéticas. Que essa pode, e deve, acompanhar o tempo em que está inserida. Que pode não ser efêmera, volátil e fugaz. E que acima de tudo, representa o modo e o "modus operandi" da sociedade e do indivíduo, em uma relação indissociável, mutável e extremamente importante para a formação e expressão da da identidade de nós mesmos. Isso pois a moda representa o entrelaçamento das lógicas da sociedade contemporânea.


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