Tecido antiviral: uma tendência que associao papel da moda à saúde

(Matéria)

Muito se pensou e foi debatido sobre o que seria da moda em tempos de pandemia. Entre diversas tendências inesperadas e alguns modismos, um fato que não podemos negar é que o cenário fashion teve de se adaptar ao novo.

Moletons e tie dyes podem muito bem estar sendo os queridinhos dessa quarentena, mas convenhamos que eles não são tão novos assim no mundo da moda. Então, qual a principal novidade nesses tempos tão difíceis?


Diversos setores já começaram a andar de mãos dadas com a saúde, e a moda não deve seguir por um caminho diferente. Com o passar dos anos, os consumidores começaram a se importar muito mais com seu próprio bem-estar e conforto, e isso acaba se espelhando no seu modo de agir e se vestir. Um dos exemplos mais comuns são as roupas com proteção ultravioleta (UV), que viraram muito famosas no ano de 2007, e tinham como objetivo proteger a pele dos usuários.

Com a chegada do novo coronavírus, a situação não foi muito excepcional. Por ser um vírus altamente contagioso, estima-se que ele consiga sobreviver por até 96 horas em panos (New England Journal of Medicine, março de 2020), podendo contaminar toda e qualquer pessoa que entre em contato com ele dentro deste tempo. Foi aí que pensaram: mas e se a gente criasse um tecido antiviral? Apesar de parecer um sonho distante, ele já está no meio de nós (amém). E essa promete ser a maior inovação do momento, quando falamos de moda.

O material teve rápida “criação” e produção, uma vez que ele já existia no mercado, porém não exatamente com a função antiviral. No Brasil, havia uma patente de um material que evita a proliferação de fungos e bactérias diminuindo, assim, o mau odor nas roupas. A suspeita de que esse material também protegesse contra certos tipos de vírus já existia, mas como não era de interesse da população, o estudo não foi para frente.

Com a chegada da pandemia de Covid-19, o fator antiviral foi lembrado e os pesquisadores da Universidade de São Carlos (UFSCar), do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e da Universitad Jaume I, da Espanha, juntamente com a startup que produzia o tecido antifúngico, voltaram a estudar a tecnologia do tecido. E já adiantamos aqui que o estudo foi um sucesso!

Afinal, como esse material funciona? Segundo os pesquisadores, já era de conhecimento da ciência e da medicina que a prata evita a contaminação por bactérias. O tecido é produzido com micropartículas de prata que oxidam ao entrarem em contato com o ar, liberando íons positivos que bloqueiam a produção de energia desses organismos e impedem sua reprodução. Esse processo pode inclusive destruir o material genético das células apenas pelo contato.

Para que a peça seja ainda mais segura e cumpra todos os seus propósitos, ela contém dois tipos diferentes de micropartículas de prata impregnadas na superfície. Assim, o coronavírus chega a ser desativado em menos de dois minutos, diminuindo a propagação da doença.

Segundo o pesquisador da USP, Lucio Holanda, é possível aplicar as micropartículas em qualquer tecido, desde que seja uma mistura entre fibras naturais e sintéticas. Isso ocorre pois as partículas são impregnadas na superfície por um processo complexo que passa por imersão e pad-dry-cure (secagem e fixação). E, ao que parece, as produções já aumentaram e diversas empresas já compraram seus lotes de tecido para a produção das suas roupas e máscaras.

Mas além de esse tecido significar um avanço para a moda em tempos de pandemia, a descoberta pode trazer muitos frutos para a ciência no geral. Segundo Holanda, o próximo passo é testar a incorporação dessas micropartículas de prata em materiais como plástico e borracha.

A notícia é animadora, principalmente para aqueles que trabalham na linha de frente na luta contra a Covid-19 e ficam expostos ao vírus diariamente. Segundo os pesquisadores da USP, máscaras e roupas fabricadas com o tecido devem chegar já no mês de julho a alguns hospitais. Isso significa maior proteção para profissionais de saúde e pacientes, além de uma menor transmissão da doença.


Tá, mas como foi feita a pesquisa?


Assim que os primeiros pacientes foram diagnosticados com a Covid-19 no Hospital Albert Einstein, a equipe de pesquisadores da USP coletou amostras do vírus. Esses exemplares foram cultivados e, após apenas dois minutos em contato com o tecido, o resultado foi muito satisfatório: o tecido eliminou 99,9% dos vírus.

“A quantidade de vírus que colocamos em contato com o tecido é muito superior à que uma máscara de proteção é exposta e, mesmo assim, o material foi capaz de eliminar o vírus com essa eficácia”, disse o pesquisador Lucio Holanda em entrevista à Agência Fapesp.

Para analisar a quantidade de vírus ativos no tecido, foi utilizada uma técnica conhecida como PCR (Proteína C-reativa), a mesma utilizada em determinados testes humanos de coronavírus.

O próximo passo é descobrir a duração desse efeito antiviral no tecido. Sabe-se que o efeito fungicida e bactericida suporta até 30 lavagens, mas ainda não sabem dizer ao certo quanto tempo ainda é eficaz para combater o vírus.

Apesar desta tecnologia revolucionar a maneira como o vírus será tratado pela sociedade, é importante lembrar de não afrouxar as demais medidas de segurança: evite sair de casa, lave sempre as mãos e utilize álcool em gel. Caso apresente algum sintoma, interrompa qualquer contato com outras pessoas e, se preciso, procure um médico. Vamos combinar que nada mais na moda do que se proteger, não é?

O facto social de Durkheim e o novo normal

Com a chegada da pandemia tivemos que nos adaptar ao “novo normal”. O termo ganhou visibilidade após a série de mudanças que tivemos que fazer na nossa rotina com o surgimento do vírus.

Para entender esse conceito, primeiro é preciso compreender o que era o “normal”. Segundo a professora do Insper, Maria Aparecida Rhein Schirato, ele surge a partir de um padrão de comportamento criado de uma identificação de hábitos e opiniões de uma comunidade. “O comum leva ao conceito de normalidade quando aquele padrão estabelecido como um, de todos, de alguma forma garante sobrevivência e proteção àqueles que fazem parte.”, afirma em entrevista ao Insper. Assim, o “novo normal” seria essa adaptação ao novo momento pelo qual estamos passando para proteção de cada indivíduo e da sociedade como um todo.

Você já ouviu falar de Émile Durkheim? O sociólogo e antropólogo francês buscava debater como as sociedades poderiam manter a integridade e coerência, principalmente com as aparições decorrentes da humanidade. Amante da psicologia, ele acreditava que crenças e modos de comportamento são instituídos pela coletividade e podem vir a mostrar fatos sociais estruturais importantes das sociedades.

Uma de suas contribuições foi o conceito de facto social. Os factos sociais são comportamentos cotidianos que afetam toda a sociedade (como escovar os dentes, tomar banho, fazer compras).

Durkheim disse uma vez "O indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são suas origens e as condições de que depende”. A partir disso, podemos perceber que as atitudes e normas - por assim dizer- vão mudando de acordo com a necessidade delas na sociedade.

Assim, à medida que vamos conhecendo e nos moldando à essa nova realidade pandêmica, vamos criando novos factos sociais, que provavelmente deverão ser mantidos mesmo quando tudo isso passar. Lavar as mãos, usar álcool em gel, tudo se tornou facto social.

O Marketing 3.0, de Kotler (2010), já mostrava uma mudança comportamental nos consumidores. De acordo com o autor, as gerações atuais se importam muito com o outro e a comunidade no geral. Além disso, essas pessoas têm como principal objetivo “fazer do mundo um lugar melhor”. E isso reflete, inclusive, na moda.

No fashion business, podemos dizer que um desses factos criados foi o de usar máscara, principalmente no Brasil. Ela é de extrema importância para evitar contaminação e transmissão do vírus entre os indivíduos da sociedade. Porém, até o momento, ela poderia ser considerada um dos únicos artifícios com esse fator protetivo.

E o que isso significa para o futuro da moda?

É aí que podemos perceber a relevância da chegada do tecido antiviral. A inserção desta inovação no mercado significa o cuidado consigo e com o próximo, visando uma “cura” breve da sociedade.

O tecido que destrói o vírus vai ser uma grande aposta, ao menos pelos próximos meses. Apesar de seu preço ser cerca de 30% superior ao preço de um tecido comum, acredita-se que essa seja a chegada de uma nova era - ou ao menos uma nova tendência - no mercado da moda.


30 visualizações